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Imagem do Buraco Negro no Centro da Galáxia

O instrumento

Para vasculhar o Universo usamos vários tipos de radiação eletromagnéticas. Algumas não são captadas pelos nossos olhos e nem por nenhum de nossos sentidos.

Os radiotelescópios usam antenas para captar ondas de rádio provenientes do espaço.  A figura mais comum que nos vem à mente são antenas parabólicas. Quanto maior o disco, maior a resolução, isto é, ,mais detalhes pequenos o instrumento pode distinguir. Imagine agora se combinamos os dados de antenas distintas numa só imagem? Chamamos isso de interferometria. Se fizermos uma rede de antenas cobrindo distâncias continentais, teremos como resultado algo semelhante a um disco de proporções da ordem Terra.

Localização dos Radiotelescópios do EHT distribuídos pelo globo.
Radiotelescópio ALMA no Andes
Radiotelescópio no Pólo Sul

Foi exatamente isso que o Event Horizon Telescope (ETH) fez. Em 2019 esse arranjo de 13 conjuntos de antenas, em 4 continentes, nos deu a primeira imagem de um buraco negro na galáxia M87.

Buraco negro na galáxia M87 pelo EHT

O objeto

Na verdade não se pode ver um buraco negro. Só observamos a matéria estelar que cai no buraco negro. Este anel da matéria espiralando em direção ao buraco negro é chamado disco de acresção e emite muita radiação. Isto acontece pouco antes de entrar no chamado horizonte de eventos e, a partir daí, nada mais escapa. 

Sagitário A é uma  extensa fonte de rádio bem conhecida dos astrofísicos desde 1974, mas só agora, com o EHT, podemos ver detalhes do seu disco de acresção. Não havia nenhum instrumento até hoje capaz de realizar tal façanha. Este objeto se encontra a 26 mil anos-luz e é o que se usou chamar de buraco negro supermassivo.

Buraco Negro Sagitário A mapeado pelo EHT
Sagitário A mapeado pelo EHT

Os buracos negros estelares são formados no fim da vida de uma estrela com no mínimo 10 massas solares. Os buracos negros supermassivos foram formados por imensas nuvens de gás ou por milhões de estrelas que se amontoaram em aglomerados estelares. Isto aconteceu no início do Universo. Buracos negros supermassivos são encontrados no centro das galáxias.

É uma foto?

Temos que ter em mente a diferença entre foto e imagem. No sentido estrito essa não é uma fotografia. Não é resultado da luz visível obtida por um dispositivo óptico. É uma representação visual de um conjunto de dados de rádio. Está mais para um mapa e as cores não são reais: os tons de amarelo e laranja apenas representam intensidades de radiação.

A vantagem deste tipo de imagem é sua alta resolução que nos permite ver detalhes da estrutura antes invisíveis.

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Eclipse Total da Lua

Durante a madrugada de 15 para 16 de maio acontecerá um eclipse total da Lua. É um dos fenômenos astronômicos que mais despertam nosso imaginário, tanto pela beleza, como pela compreensão de que fazemos parte de algo grandioso. Povos da antiguidade tendiam a enxergar o fenômeno com um misto de espanto e temor.

Na China antiga, os eclipses solares e lunares eram considerados presságios sobre o futuro do imperador. Acreditava-se que durante os eclipses um dragão celestial devorava o Sol ou a Lua. As pessoas saiam para as ruas batendo tambores e panelas para espantar o dragão.

Crédito: MET Museum

Durante o eclipse lunar a Terra está posicionada entre o Sol e a Lua, de forma que a sombra da Terra é projetada sobre a superfície da Lua. Se a Lua fica totalmente na umbra da Terra, o eclipse é total. Se apenas uma parte da Lua passa pela umbra, o eclipse é parcial. Se a Lua passa somente pela penumbra, o eclipse é penumbral, ocasião de pouco interesse para o público em geral, uma vez que durante o eclipse penumbral o brilho da Lua praticamente não muda. Para nossa sorte, temos um eclipse total da Lua pela frente!

Crédito: NASA

Durante o ápice do eclipse, ou seja, na totalidade, a Lua apresenta uma tonalidade tênue e pode ficar ligeiramente avermelhada, o que costuma encantar quem está observando. O fenômeno, que no meio popular é conhecido por “Lua de Sangue”, acontece porque uma parte da luz do Sol sofre refração ao atravessar a atmosfera de nosso planeta, atingindo em seguida a Lua. A atmosfera da Terra espalha e absorve com mais intensidade a radiação azulada, deixando passar a componente vermelha.

Eclipse lunar em 15 de maio de 2003. Crédito: Loyd Overcash.
Por que a Lua fica vermelha durante um eclipse lunar total? Crédito: timeanddate.com

A duração máxima de um eclipse lunar é de 3,8 horas, e a duração da fase total é sempre menor que 1,7 hora. Ao contrário do eclipse do Sol, que só é visível numa pequena região do planeta, o eclipse da Lua pode ser visto em todos os lugares onde ela já tenha surgido no horizonte (metade do planeta). Em um ano acontecem no mínimo 2 eclipses, sendo os dois solares, e no máximo sete, sendo cinco solares e dois lunares ou quatro solares e três lunares.

Sequência de fotografias do eclipse lunar quase total de 19 de novembro de 2021, obtidas a cada cinco minutos. Perceba como a sequência define muito bem a sombra da Terra (umbra). Crédito: Zoltan Levay.

O eclipse da Lua é um daqueles fenômenos astronômicos que podem facilmente ser acompanhados sem uso de instrumentos. Se você quiser acompanhar o próximo eclipse total da Lua, preste atenção nos horários das fases principais do eclipse (hora de Brasília):

Início do eclipse (a Lua começa a ser “mordida”) – 23h27min (15/05/2022)

Início da totalidade – 0h29min (16/05/2022)

Ápice do eclipse (Lua pode estar levemente avermelhada) – 1h11min

Fim da totalidade – 1h53min

Fim do eclipse – 2h55min

Se o clima ajudar o eclipse poderá ser visto em todo o Brasil.

Autor: Paulo Pereira

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Dia dos Povos Indígenas

O dia 19 de abril é o Dia dos Povos Indígenas e celebra a resistência dos povos originários do Brasil. De acordo com a Funai, atualmente encontramos em território brasileiro 305 povos indígenas, falantes de 274 línguas, porém, infelizmente, ainda conhecemos e valorizamos muito pouco os seus conhecimentos sobre a natureza, especialmente as suas cosmo percepções.

Crescemos ouvindo falar das constelações do Escorpião, do Centauro, do Cruzeiro do Sul, entre outras. Estas visões celestes chegaram até nós por milenares e tortuosos caminhos, desde os Babilônios, Egípcios e Assírios, passando pelos antigos Gregos e por astrônomos e cartógrafos celestes europeus dos séculos XVI e XVII, até finalmente serem reconhecidas pela União Astronômica Internacional em 1922. O que poucos sabem é que este panteão celeste que herdamos da nossa colonização europeia é apenas uma das múltiplas formas de se olhar e conhecer o céu. Se perguntarmos a um Guarani o que ele vê na região do céu em torno do Cruzeiro do Sul, ele provavelmente nos dirá que vê uma Ema. Se perguntado a um Ticuna, ele poderá lhe falar sobre o Tamanduá e a Onça celestes. De cada povo ouviremos novos nomes de constelações e mitos que narram seus feitos e histórias, que muitas vezes estão refletidos também em seus artefatos e em suas manifestações artísticas, como cantos e pinturas.

Todas as culturas humanas, antigas e atuais, têm o seu próprio céu. Ao longo da história da humanidade, diversos povos perceberam os ciclos e fenômenos celestes e os interpretaram, relacionando-os com suas atividades sociais. Essa busca por conhecimento e entendimento do Cosmos foi utilizada para manter os ciclos de subsistência sazonal, mas em alguns casos também ajudaram a manter ideologias dominantes e hierarquias sociais complexas. Percepções do céu muito diferentes, em natureza, daquela oferecida pela ciência moderna Ocidental são encontradas em muitas culturas indígenas ao redor do mundo.

Do ponto de vista epistemológico, há muita diversidade para ser analisada e compreendida em todo o território brasileiro, apontando-nos um painel étnico e epistemológico muito mais complexo e rico do que se pensaria à primeira vista. Estes conhecimentos, porém, não estão na escola, nem nos livros, pois foram silenciados e invisibilizados pelo racismo epistêmico.

O próprio termo “índio” carrega estereótipos sobre indígenas e é racista, como afirma Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB): “uma data com esse nome não alcança a diversidade dos 305 povos indígenas do Brasil e, ao romantizar a figura do indígena, invisibiliza os povos originários”.

O “Dia do Índio” foi uma data alusiva criada no Brasil por meio de um decreto do presidente Getúlio Vargas, em 1943 (Decreto-Lei 5.540/43). No entanto, os termos “índio” e “tribo”, impostos pelos colonizadores, vêm sendo questionados há anos pelos povos originários. Segundo a APIB, a adoção de 19 de abril como dia para celebrar a cultura dos povos indígenas do Brasil foi resultado de debates realizados no Primeiro Congresso Indigenista Interamericano em 1940, no México.

De acordo com a Agência Câmara de Notícias, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou no ano passado o projeto de lei que muda o nome do “Dia do Índio”, celebrado em 19 de abril, para “Dia dos Povos Indígenas”. A proposta é de autoria da deputada Joenia Wapichana. Segundo ela, a intenção ao renomear a data é ressaltar, de forma simbólica, não o valor do indivíduo estigmatizado “índio” mas o valor dos povos indígenas para a sociedade brasileira.

Quantas belíssimas histórias e saberes os povos originários têm para nos ensinar! Precisamos ouvir, mais do nunca, sua sabedoria ancestral e aprender com eles novas formas de estar no mundo, em harmonia e respeitando todos os seres vivos. Como diz Ailton Krenak, a vida tem que ser uma fruição, uma dança cósmica!

Para saber mais:

Imagem capa: Stellarium

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A Lua Cheia Pascal

No próximo dia 17 de abril, cristãos em todo o mundo celebrarão a Páscoa. A data relembra a ressurreição de Cristo, sendo também momento de reflexão e convite à renovação da fé. A Páscoa é uma festa móvel, ou seja, não tem uma data fixa para acontecer, e todos os anos precisamos recorrer ao calendário para saber quando acontecerá. A única coisa que as pessoas em geral sabem é que sempre cai num domingo. Falando nisso, você sabe como se calcula a data da Páscoa? A data da Páscoa tem raízes na tradição judaica e na Astronomia.

Segundo a Bíblia, a morte e a ressurreição de Jesus ocorreram na época da Páscoa Judaica (Pessach), que celebra a libertação do povo de Israel da escravidão no Egito e, tradicionalmente, ocorria na primeira Lua Cheia depois do equinócio da primavera no hemisfério norte. Por volta do século 2, alguns lugares celebravam a Páscoa Cristã junto com a Páscoa Judaica, enquanto outros, buscando uma independência dos eventos, transferiam a data para o domingo seguinte. Uma confusão que gerava discórdia dentro da própria Igreja.

Era necessário estabelecer uma regra unificadora, e para isso recorreu-se aos cálculos dos astrônomos. Assim, no ano 325 realizou-se o Primeiro Concílio de Niceia, quando se definiu que a Páscoa aconteceria no primeiro domingo após a primeira Lua Cheia após o equinócio da primavera no hemisfério norte (adotou-se 21 de março).

Afresco do Primeiro Concílio de Niceia. Capela Sistina, Vaticano.

Havia um problema. O calendário adotado na época – o calendário juliano, promulgado por Júlio César em 46 a.C. – tinha um ano com duração média 11 minutos maior do que o ano das estações. Gerava um erro de 1 dia em 128 anos. Pode parecer pouco, mas provocava um deslocamento de todas as datas, inclusive a da Páscoa, por entre as estações. No século 16, o equinócio da primavera no hemisfério norte estava acontecendo no dia 11 de março, 10 dias antes da data original. Ou seja, a festividade da Páscoa estava sendo realizada na data incorreta, uma heresia das grandes!

Era necessário um calendário consistente e capaz de unificar a data da Páscoa. Após algumas idas e vindas, no século 16, o Papa Gregório XIII estabeleceu uma comissão que contava com astrônomos (sempre eles!) e matemáticos para estudar o caso. Para apoiar o projeto, bem no meio do Vaticano, um observatório foi construído na Torre Gregoriana (também conhecido como “Specola Astronomica Vaticana”.

Torre Gregoriana, Vaticano. Construída entre 1578 e 1580, forneceu dados astronômicos para a construção do calendário Gregoriano, adotado até hoje.

Como resultado do esforço, foi criado o calendário Gregoriano que adotamos atualmente. Bem mais preciso, o ano do calendário tem uma diferença de apenas 26 segundos em relação ao ano das estações, implicando numa defasagem de 1 dia em 3.323 anos. A Páscoa estava salva.

Discussão da reforma do calendário conduzida pelo Papa Gregório XIII.
Página da bula papal Inter gravissimas, onde se apresentou o calendário Gregoriano adotado ainda hoje pela maioria dos países. Crédito:Max Planck Institute for the History of Science, Library/ECHO.

Assim, a data da Páscoa Cristã ocorre, desde o decreto do Papa Gregório XIII, em 1582, no primeiro domingo depois da Lua Cheia, que ocorre em ou depois de 21 de março. A Lua Cheia do decreto não é a astronômica, mas a Lua Cheia eclesiástica, cuja data é definida pelas Tabelas Eclesiásticas, e que é bem próxima da Lua Cheia real, afastando-se dela no máximo dois dias. Já o dia 21 de março foi escolhido para representar o equinócio da primavera no hemisfério norte. Mas não é necessariamente a data astronômica, que pode ocorrer nos dias 19, 20 ou 21 de março. Em 2022, por exemplo, o equinócio da primavera no hemisfério norte ocorreu no dia 20 de março. Portanto, o equinócio adotado no cálculo da Páscoa Cristã é também eclesiástico.

Como já ficou claro, existem razões históricas para o decreto papal. Uma delas seria manter a ocorrência da Páscoa Cristã próxima da Páscoa Judaica, que é definida num calendário baseado simultaneamente nas fases da Lua e no ciclo das estações. Outra razão, não menos importante, é garantir que a data da Páscoa seja única para todo o planeta, com a adoção arbitrária do equinócio e da Lua Cheia eclesiásticos.

Se você acha meio confusa essa história de calendário eclesiástico, relaxe. Geralmente a regra para o cálculo da data da Páscoa se resume ao “primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia após 21 de março”, uma vez que as Luas eclesiástica e real geralmente são bem próximas. Como consequência das regras do decreto, a Páscoa Cristã nunca acontece antes de 22 de março nem depois de 25 de abril.

A Páscoa Cristã ocorre no primeiro domingo após a primeira Lua Cheia que ocorre em ou logo após o dia 21 de março.

Mosaico da sinagoga Beit Alpha, do século VI. As 12 constelações zodiacais rodeiam o Sol no centro. Nos quatro cantos, as quatro estações: verão, outono, inverno e primavera.

O ciclo das fases da Lua tem papel fundamental na determinação das principais festividades das três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Quem acompanhou minha postagem recente, “A Lua e o Ramadã”, sabe que a referência para o início do principal mês muçulmano é a Lua Crescente, algumas horas após a Lua Nova. Como acabamos de ver, na tradição judaico-cristã, a referência da Páscoa é a Lua Cheia. Neste ano a chamada Lua Cheia Pascal ocorrerá no dia 16 de abril, véspera da Páscoa, às 15h55min.

O ciclo lunar tem papel fundamental nas festividades religiosas dos muçulmanos, judeus e cristãos.

Neste ano a Lua Cheia Pascal ocorrerá no dia 16 de abril, véspera da Páscoa, às 15h55min.

Uma última curiosidade. As demais datas móveis do nosso calendário são conhecidas uma vez calculada a data da Páscoa. Por exemplo, a quarta-feira de cinzas, que acontece ao final do carnaval, ocorre 46 dias antes do Domingo de Páscoa, e o Corpus Christi, 60 dias depois do Domingo de Páscoa.

Feliz Páscoa e Feliz Pessach!

Paulo Cesar R. Pereira

Astrônomo

Foto de capa: Fernando Braga

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A Lua e o Ramadã

No próximo dia 2 de abril, para a maioria dos países muçulmanos, terá início o mês do Ramadã. Durante todo o mês, o fiel deve observar o jejum durante a parte clara do dia, e aprofundar sua vida espiritual por meio da oração, louvor e reflexão. Além de momento para lembrar daqueles que passam fome, o Ramadã é também ocasião para reunião familiar e congraçamento nas mesquitas. É também uma boa ocasião para conhecermos um pouco melhor o calendário adotado no mundo islâmico e o fundamento astronômico envolvido.

O calendário islâmico, que é estritamente lunar, tem 12 meses perfazendo 354 ou 355 dias. Cada mês começa no início de um novo ciclo lunar, e tem 29 ou 30 dias de duração de maneira intercalada. O calendário lunar é o oficialmente adotado em alguns países muçulmanos, como a Arábia Saudita, enquanto em outros se usa o gregoriano para finalidades civis e o islâmico para as datas religiosas.

A previsão da primeira visibilidade do crescente lunar logo após a Lua Nova é um problema astronômico complexo, que tem desafiado a astronomia por vários séculos. Em 500 a.C., na Babilônia, os astrônomos já tinham desenvolvido métodos numéricos sofisticados para prever o movimento da Lua, os instantes das fases e da ocorrência da primeira visibilidade do crescente lunar logo após o pôr do sol. Com o passar do tempo, procedimentos mais precisos foram desenvolvidos pelos astrônomos hindus, muçulmanos e judeus, e o refinamento do processo continua até hoje.

Sentado ao lado do símbolo do crescente lunar, vemos Ur-Nammu, primeiro rei da Terceira Dinastia de Ur (c. 2500 a.C.), um dos maiores centros de adoração da deusa lunar Sin (British Museum, Londres).

Como percebemos, o uso da Lua para medir a passagem do tempo fazia parte da cultura dos povos do Oriente Médio. Com o surgimento do Islã, a prática de se usar a Lua ganhou status de obrigatoriedade a partir da seguinte passagem do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos:

““Perguntar-te-ão sobre os novilúnios. Dize-lhes: servem para auxiliar o homem no cômputo do tempo e no conhecimento da época da peregrinação…”(2:189)

No começo era comum cada localidade designar um grupo de pessoas treinadas para observar o crescente lunar e determinar a duração de cada mês no calendário islâmico. Essa necessidade de se registrar visualmente o crescente, gerava dificuldades na previsão da duração do mês, pois fatores como a presença de nuvens, condições atmosféricas, baixa altura da Lua em relação ao horizonte e o seu afastamento do Sol, podem inviabilizar a observação do tênue fino crescente. Caso a Lua não fosse observada na data esperada, o mês ganhava um dia adicional. Em 2019 obtive uma fotografia da Lua no ano novo islâmico, alguns minutos após o pôr do sol (abaixo). Repare como ela estava muito próxima do horizonte, como sempre acontece no início de cada mês muçulmano.

Crescente lunar no ano novo islâmico em 1º de setembro de 2019 (1 Muharram 1441). Crédito: autor do texto.

A necessidade de se elaborar um calendário lunar rigoroso estimulou o desenvolvimento da Astronomia no mundo islâmico a partir do século 8, gerando uma grande quantidade de tratados sobre a Lua e seus movimentos, culminando com modelos matemáticos extremamente complexos, que viriam a influenciar Nicolau Copérnico no século 16, em plena Europa Renascentista.

As fases da lua durante o Ramadã
Estudo das fases da Lua de al-Biruni (973-1048), famoso astrônomo persa.
Aparência do fino crescente para cada mês de 1614. Cairo. MS Cairo DM
141,3. Egyptian National Library

É fácil entender o motivo dos meses do calendário muçulmano terem alternadamente, 29 e 30 dias. Para isso temos que lembrar a origem das fases da Lua. Uma vez que nosso satélite natural não possui luz própria e orbita a Terra, observamos a sua parte iluminada em diferentes ângulos, fazendo com que a aparência lunar se modifique (imagem abaixo).

Ciclo das fases da Lua. A imagem não está em escala, e o Sol se encontra à direita com os raios solares indicados.

O intervalo de tempo para a ocorrência de duas fases idênticas é chamado Período sinódico e tem o valor médio de 29d 12h 44min 3s = 29,53059 dias. Ora, o calendário lunar se baseia justamente nesse ciclo. Naturalmente, não é nada prático criar um calendário onde cada mês tenha a duração de 29 dias e “meio”. Assim, foi criando um calendário com 12 meses lunares com durações alternadas de 29 e 30 dias, o que na prática, a longo prazo, dá um mês com duração média de 29,5 dias. Genial não é? Quase! Perceba que ainda assim, 29,5 é diferente de 29,53059 (a duração real do mês sinódico) e, por isso, de tempos em tempos, se faz a inserção de um dia no último mês do ano. Essa é a razão do ano lunar muçulmano ter 354 ou 355 dias.

Países diferentes podem celebrar o Ramadã e outras datas religiosas em dias diferentes. O motivo é simples: o início de cada mês depende da visibilidade do crescente lunar, enquanto que a hora que a Lua se põe num lugar particular, depende da longitude. Assim não se espante se ao fazer pesquisa no Google sobre a data do Ramadã, vier a encontrar datas diferentes.

Atualmente várias comunidades se utilizam do calendário lunar estabelecido por critérios astronômicos bem definidos, e não mais dependentes da visibilidade do crescente lunar. No entanto, para muitos muçulmanos, a primeira visibilidade do crescente lunar no começo de cada mês é ainda uma questão sensível. Particularmente no início e fim do Ramadã e do Hajj (mês da peregrinação à cidade sagrada de Meca), ocasiões em que o crescente lunar é ansiosamente aguardado por muçulmanos em toda parte do mundo.

Acompanhar o ciclo das fases da Lua era uma tarefa necessária para os povos nômades do deserto bem antes do advento do Islã. A importância da Lua nas sociedades muçulmanas pode ser percebida nas suas bandeiras, arte em geral e na rica arquitetura das mesquitas.

Bandeira da Argélia.
Mesquita Karaganda, no Cazaquistão.

Quem quiser poderá acompanhar nos próximos dias a contínua e bela mudança da aparência da Lua. No dia 2 de abril, às 17h40min, a Lua estará bem fininha e próxima de onde o Sol se pôs. No início das noites seguintes, será fácil perceber a mudança da sua aparência em direção ao Quarto Crescente. Aliás, essa é a melhor fase da Lua para se observar ao telescópio. Fica aqui o convite para vir até o Planetário na próxima quarta-feira, dia 6 de abril. A distribuição de senhas para a observação do céu tem início às 18h30min.

Feliz Ramadã!

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Um eclipse lunar quase total

No fim da madrugada de amanhã (19 de novembro), acontecerá o eclipse parcial da Lua mais longo do século. O eclipse lunar é um dos fenômenos celestes mais democráticos que existem, pois não é necessário o uso de equipamento para acompanhá-lo. Apesar de não ser tão espetacular quanto os eclipses totais, o fenômeno de amanhã será uma boa oportunidade para apreciar o resultado de um alinhamento cósmico que encanta a humanidade desde épocas remotas.

O eclipse lunar acontece quando o Sol, a Terra e a Lua se alinham, fazendo com que a Lua passe pela sombra da Terra. Quando a Lua inteira entra na parte mais escura da sombra da Terra, chamada de umbra, ocorre o eclipse lunar total.

O eclipse de amanhã será parcial, ou seja, apenas parte da superfície lunar estará dentro da umbra. No entanto, por muito pouco não teremos um eclipse total, uma vez que, no ápice do fenômeno, 97% da superfície do nosso satélite natural estará na umbra.

Infelizmente o carioca só poderá observar o início do eclipse, pois a Lua estará quase se pondo, momentos antes do nascer do Sol. Procure um local onde o poente esteja livre de prédios e montanhas (lembre-se, a Lua estará bem baixa!). Às 4h19min (hora de Brasília) de amanhã, a Lua começará a entrar na umbra da Terra e o eclipse parcial terá início. À medida que a Lua se mover para a umbra, parecerá que o disco lunar está sendo “mordido”, e a parte da Lua dentro da umbra aparecerá bem escura. O Sol nascerá às 5h e, antes disso, a claridade do alvorecer irá atrapalhar a observação. O auge do fenômeno acontecerá às 6h, quando a Lua já estará abaixo do horizonte. A imagem abaixo mostra a parte da Lua que estará “mordida” no momento que a Lua desaparecer no horizonte oeste.

A chegada de uma frente fria provavelmente trará chuva para a cidade do Rio de Janeiro neste fim de semana, o que poderá impedir a observação do fenômeno. A boa notícia é que o próximo eclipse lunar será total, e poderá ser visto inteirinho, do começo ao fim, do Rio de Janeiro. Ele ocorrerá na noite do dia 15 para 16 de maio de 2022.

Quem quiser poderá acompanhar uma transmissão ao vivo do eclipse parcial:

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Lua Gigante ou Fake News?

O vídeo que está circulando nas redes sobre uma imagem da lua nascendo enorme  é na verdade uma montagem bem fácil de ser identificada. O vídeo mostra a Lua nascendo cheia de um lado do horizonte e se pondo nova do outro lado. Muitos têm compartilhado a mensagem que alega ser na Rússia ou no Alasca ou em outros lugares remotos.  

Se prestar a atenção o vídeo tem duas partes: a parte de baixo que é uma paisagem comum e a parte de cima um céu azul onde foi sobreposta uma animação. A animação parece feita por algum software, talvez até um aplicativo astronômico. Talvez o Sol que aparece seja da imagem original mas certamente a imagem da lua foi colocada ali sobreposta. A Lua do vídeo se move muito rápido para ser real. Em nenhum momento nosso satélite aparece tão grande. Na verdade, nenhum astro se move tão rápido a não ser que fosse um satélite artificial que é muitas vezes menor que a Lua e está muitas vezes mais perto de nós. 

A lua está a uma distância de 400000 km e não varia muito essa distância ao longo do seu movimento ao redor da Terra. O tamanho aparente (não o real) do Sol e da Lua são quase iguais, isto ocorre porque o Sol é 400 vezes maior que a Lua e está a aproximadamente 400 vezes mais distante, fazendo com que o tamanho angular seja quase o mesmo o que não acontece no vídeo. Para que ela aparecesse daquele tamanho teria que haver um cataclismo. A lua influencia na terra através das marés; se ela estivesse aquela distância a sua força gravitacional produziria maremotos e terremotos. Isso não aconteceu: aquela é só uma imagem muito bem montada muito bem desenhada num software.

Outro detalhe importante é o tempo.  Demoraria mais de 28 dias para que ela passasse todas as fases que aparece no vídeo: cheia, minguante, nova e crescente e ali acontecem alguns segundos (inclusive um eclipse). Algo assim não poderia ter acontecido nunca mesmo num lugar remoto.

Para terminar: a lua do vídeo está rodando, isto não corresponde a realidad pois a Lua mostra sempre a mesma face para nós. Note a cratera escura na borda esquerda do vídeo assim que a Lua “nasce” ela vai sumindo depois de alguns segundos.

Se você um dia ver imagens como essas, sempre desconfie. Não passe adiante.  Não vamos alimentar a moda dos fake news.

Contribuíram com este texto os astrônomos: Jorge Marcelino dos Santos Junior e Flavia Pedroza Lima

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Caçadores de satélites: ISS, Júpiter e Saturno juntos no céu

O alvorecer do dia 20 de março será bem bacana para quem gosta de acompanhar as passagens de satélites. A Estação Espacial Internacional (ISS – International Space Station) terá uma passagem bem favorável para os moradores do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Goiás. Além disso, os planetas Júpiter e Saturno estarão visíveis nas proximidades.


Quando a passagem da estação se dá em condições favoráveis, qualquer pessoa pode observar usando seus próprios olhos. Isso mesmo, não há necessidade de telescópio. Na verdade, já que o evento é relativamente curto, o telescópio pode até atrapalhar. Basta apenas pegar a carta celeste e se dirigir para um local onde você tenha acesso ao céu e, de preferência, com o horizonte livre e sem luz urbana.

Passagem da ISS entre Vênus e Marte na França, em 15/02/2017. Crédito: David Duarte.

A ISS é visível porque reflete a luz do Sol, da mesma forma que a Lua. Ao contrário da Lua, ela não pode ser observada durante o dia mas, sob certas circunstâncias, momentos antes do amanhecer ou após o pôr do Sol. Para alguns, ela lembra uma estrela, só que em movimento. Para outros, um avião, com a exceção de que a ISS não apresenta luz piscando.

A carta celeste abaixo indica a passagem da ISS por entre as constelações, para o amanhecer do dia 20 de março. Ela foi confeccionada para a Cidade do Rio de Janeiro e arredores. Se você estiver em outra cidade, poderá obter uma carta adequada AQUI (lembre-se de informar a sua cidade antes de gerar a carta). Note que alguns horários estão indicados na carta, uma vez que precisamos saber não somente para onde olhar, mas também, quando!


Carta celeste para a passagem da ISS no amanhecer do dia 20 de março, para a Cidade do Rio de Janeiro e arredores. Norte está em cima e sul embaixo. Leste à esquerda.

Aproveite a oportunidade e acompanhe o início da temporada de visibilidade dos planetas gigantes Júpiter e Saturno. Eles estarão bem visíveis no horizonte leste, momentos antes do Sol nascer, na constelação do Capricórnio. A passagem da ISS é também uma excelente ocasião para aprender a identificar algumas das principais constelações usando a carta celeste.

Viajando a 440km do solo, e incríveis 27.000km/h, a ISS completa uma volta ao redor da Terra em apenas 93 minutos. Isso significa que esses eventos não são raros. Então não fique triste caso não consiga acompanhar dessa vez. No caso de alguém tirar foto do evento e desejar compartilhar conosco, fique à vontade!

Vamos torcer para o céu colaborar. Boa caçada!

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Marte: Esperança, Questões Celestiais e Perseverança

Marte sempre foi o maior alvo da pesquisa espacial e este mês de fevereiro de 2021 recebe três visitas, quase simultâneas, de três missões de exploração.

Esperança Arábe

Acima e a esquerda representação da sonda em modo de cruzeiro, abaixo e a esquerda sonda sendo preparada antes do lançamento, a direita diagrama das etapas da missão

A missão inaugural do programa de exploração planetária dos Emirados Árabes chama-se Hope (em árabe Al Amal que siginifica Esperança) e foi lançada com sucesso em 20 de junho de 2020. O programa, orçado em US$200 milhões, foi produto de uma colaboração com o Japão (que forneceu o foguete lançador) e três universidades americanas. Trata-se de um sonda orbital para estudar a atmosfera marciana através de câmeras de alta resolução no infravermelho e ultravioleta. Espera-se coletar uma enorme quantidade de dados da dinâmica atmosférica marciana. A previsão é de que a sonda entre e órbita no próximo dia 09 de fevereiro de 2021.

ver https://www.emiratesmarsmission.ae/

Questões Celestiais Chinesas

A esquerda representação do rover em funcionamento, ao centro as três partes da missão: orbiter, rover e lander; a direita acima sonda em modo de cruzeiro, a direita abaixo sonda antes do lançamento

A China tem se tornado um potência espacial inquestionável desde que lançou sua missões tripuladas ao redor da Terra e sondas a Lua. A primeira missão chinesa a Marte foi em parceria com a Rússia em 2011 que não obteve sucesso.
Agora chegou a hora de mirar Marte novamente. A sonda chinesa chama-se Tianwen (Questões Celestes) e trata-se de uma missão completa: orbiter, lander e rover. Foi lançada em 23 de julho de 2020 e deve chegar a Marte no dia 10 de fevereiro de 2021. O lugar de pouso programado chama-se Utopia Planitia, famoso na série Star Trek por ser o lugar ficticio onde a Enterprise-D e a Voyager foram construídas: nos estaleiros da Federação dos Planetas. O principal objetivo da sonda é buscar evidências de vida (passada ou atual) e avaliar o meio ambiente marciano, incluíndo sondas de penetração do solo. O primeiro vôo tripulado chinês ao planeta está agendado para as próximas décadas.

ver https://en.wikipedia.org/wiki/Tianwen-1

Perseverança e Engenhosidade Americanas

A esquerda a sonda em modo de cruzeiro, acima drone Ingenuity, abaixo a direita: rover Perseverance.

O Programa de Exploração de Marte da Nasa já enviou quatro rovers ao planeta que se tornaram famosos: Sojourner (1997), Spirit (2004), Oportunity (2004) e o Curiosity (2012). O rover Perseverance (Perseverança) vai a bordo da sonda Mars2020 junto com um companheiro pioneiro: o drone Ingenuity (Engenhosidade). O local de pouso é a Cratera Jezero que há 3.7 bilhões de anos atrás deve ter abrigado um um lago no um delta de rio onde acumulou sedimentos que podem ter preservado bem bioassinaturas (sinais químicos da presença de vida). A sonda custou algo em torno de US$2,1 bilhão e traz uma quantidade enorme de instrumentos. O drone Ingenuity é um helicóptero robótico que pretende escoltar o Perseverance, procurando locais promissores para prospectar. Essa será a primeira experiência de um objeto voador em outro planeta testando estabilidade e manobrabilidade. A previsão de chegada é dia 18 de fevereiro. Outra expectativa desta missão é recolher amostras para, em uma futura missão, retornar a Terra.

ver https://mars.nasa.gov/mars2020/

Teremos em breve muitas informações interessantes sobre o planeta Marte. Fiquem atentos.

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Coluna do Astrônomo Conteúdo científico

Cultivo de cianobactérias usando a luz das estrelas

A busca de vida fora da Terra é um dos ramos da astronomia moderna que mais despertam o interesse dos cientistas e de pessoas em geral. A inquietante pergunta “estamos sós no Universo?” tem percorrido o imaginário por séculos, e ganhou novos contornos em 2016, quando se descobriu que ao redor da estrela mais próxima da Terra, uma pequena anã vermelha distante 4,25 anos-luz, girava um planeta com condições de abrigar água no estado líquido. A excitação da descoberta não apaga o fato de que estrelas anãs vermelhas têm uma luminosidade mais fraca e avermelhada do que a luz que sustenta a vida na Terra. E a dúvida persistente na mente dos astrobiólogos tem sido: estrelas bem menos quentes que o nosso Sol poderiam hospedar vida?

As anãs vermelhas são alvos promissores para a busca de exoplanetas, uma vez que são pequenas e pouco luminosas, de forma que planetas que eventualmente passem na frente da estrela são mais facilmente detectados. Isso porque uma das maneiras de inferir a presença de um planeta se dá por meio de um fenômeno parecido com o eclipse, mas que é chamado de “trânsito”: quando um planeta passa na frente de uma estrela, instrumentos na Terra detectam uma queda na luminosidade estelar.

Ilustração do trânsito do exoplaneta WASP-107b, orbitando uma estrela distante 200 anos-luz. Crédito: ESA/Hubble, NASA, M. Kornmesser

Esse é um dos métodos mais eficientes de descoberta de exoplanetas: o catálogo de exoplanetas da NASA contém mais de 4.300 objetos, dos quais, 3.294 foram descobertos por meio dos trânsitos (https://exoplanets.nasa.gov/).

Como as anãs vermelhas têm pouca massa, os planetas têm órbitas mais próximas e portanto, são mais rápidos, produzindo trânsitos periódicos facilmente monitorados. Como era de se esperar, um grande número de exoplanetas foi encontrado ao redor de anãs vermelhas, vários deles na chamada zona de habitabilidade (região na qual se acredita que a água possa existir no estado líquido; ou seja, o exoplaneta está nem muito longe da estrela central, a ponto da água estar congelada, nem muito perto, para que a luminosidade estelar evapore a água). Porém a dúvida permanece: funções biológicas básicas como a fotossíntese podem ocorrer em condições mais frias, com baixa luminosidade avermelhada?

As primeiras respostas para essa pergunta começaram a surgir, graças ao trabalho de uma equipe do Observatório Astronômico de Padova, na Itália, que culminou com a publicação dos resultados na Revista Life, em 12 de janeiro deste ano. Nos últimos anos foram descobertas cianobactérias extremófilas com clorofila, que conseguem sobreviver em ambientes de pouquíssima luz, onde outras bactérias morreriam. O grupo italiano decidiu então pesquisar a possibilidade dessas cianobactérias sobreviverem sob a luz de uma estrela anã vermelha. Para isso, a equipe simulou um ambiente com luz similar à produzida por estrelas anãs vermelhas e verificou o seu efeito em vários tipos de bactérias.

Essas bactérias incluíam a Chlorogloeopsis Thermalis, uma cianobactéria extremófila, que aparece em fontes termais, e é capaz de fotossintetizar na presença da luz vermelha próxima ao infravermelho. O resultado foi promissor: a bactéria se desenvolveu sob a luz simulada de uma anã vermelha!

Crédito: Ezume Images/Shutterstock

O experimento demonstrou que estrelas anãs vermelhas produzem luz que alguns seres vivos podem capturar para realizar a fotossíntese. Isso implica num ambiente onde a vida pode ser sustentável?

Infelizmente as estrelas anãs vermelhas são propensas a emitir rápidas e violentas explosões com intensa emissão de ultravioleta, o que poderia inviabilizar a presença de substâncias voláteis, como a água. No entanto, se a fotossíntese for possível nesses exoplanetas, eles podem exibir sinais reveladores para nós observadores distantes, como por exemplo, uma atmosfera rica em oxigênio (sabe-se que o oxigênio da Terra está associado à fotossíntese, principalmente das algas marinhas).

Alguns geólogos planetários consideram que uma atmosfera rica em oxigênio poderia também ser criada pela luz solar transformando a água em hidrogênio e oxigênio. Neste caso, um registro mais convincente seria uma queda repentina de luz infravermelha causada pela absorção fotossintética na superfície do planeta. O Telescópio Espacial James Webb (https://www.jwst.nasa.gov/), substituto do Hubble, está programado para ser lançado no fim de 2021 e deve ser capaz de estudar, dentre outras coisas, esse aspecto da natureza dos exoplanetas. Aguardamos ansiosos!


Espelho primário do Telescópio Espacial James Webb. Crédito: NASA.