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Júpiter Soberano

Depois de Marte, além do cinturão de asteroides, nós vamos encontrar o planeta Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar e o primeiro de uma outra categoria de planetas. Enquanto os planetas mais internos (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte) são planetas densos e pequenos, os planetas externos são chamados de gigantes gasosos: muito maiores, menos densos e compostos basicamente de gases. Destes o maior é Júpiter.

Júpiter é conhecido desde a antiguidade pois é fácil vê-lo no céu. Ele é um dos cinco planetas visíveis à vista desarmada: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Pelo seu movimento lento e o brilho intenso (é o quarto objeto natural mais brilhante visível no céu da Terra), várias civilizações antigas atribuíram grande destaque a Júpiter. Foi associado à maior divindade do Panteão grego: Zeus, o Deus dos Deuses e o rei do Olimpo. Muitos povos associaram-no ao seu deus do trovão.

Da esquerda para a direita: Júpiter (Roma), Thor (Escandinávia) e Zeus (Grécia).

Em 1610, o sábio italiano Galileu Galilei (1564-1642) registrou suas observações de Júpiter no livro Mensageiro Sideral. Este livro foi o primeiro registro metódico de observações celestes feitas através de um instrumento óptico: a recém-inventada luneta astronômica. Observando Júpiter, Galileu percebeu quatro pontos luminosos alinhados com o disco do planeta. Ao observar por um período notou um movimento pendular ao redor do astro maior. Não poderiam ser estrelas: eram os quatro maiores satélites de Júpiter. Mais tarde receberam a denominação de luas galileanas, em homenagem a Galileu.
Mesmo com um telescópio com baixo aumento é possível vê-las. Essa descoberta foi muito importante para a determinação de que a Terra não era o centro do Sistema Solar.

Luas Galileanas: no alto uma imagem telescópica. Abaixo fotos obtidas por sondas espaciais (da esquerda para a direita): Io, Europa, Ganimedes e Calixto.

Essas luas são Io, Europa, Calixto e Ganimedes. Cada uma destas é um pequeno mundo particular. A cada dia se descobre mais coisas interessantes sobre cada uma delas. Io é vulcânica e Europa tem um oceano recoberto de gelo que pode abrigar condições de vida. Esta é um dos mais esperados alvos de missões futuras.

Neste momento nós sabemos que existem pelo menos 79 luas jovianas, mas pode ser que existam mais. Como Júpiter tem uma gravidade muito intensa, ele recolheu muito material ao seu redor durante a sua formação bilhões de anos atrás. Algumas dessas luas podem ter se formado junto com o planeta. Outras luas podem ter sido asteroides ou cometas capturados ao longo da história do Sistema Solar.

Sendo essencialmente gasoso fica estranho falar em uma atmosfera joviana. O planeta, em termos de massa, é composto por 75% de hidrogênio e 24% de hélio. O 1% restante é composto de metano, amônia, fósforo e vapor de água, nesta ordem de abundância. O planeta gira rapidamente em torno do seu próprio eixo num período de quase 10 horas. Mas o ano joviano dura um pouco menos que 12 dos nossos anos terrestres.

Rotação da atmosfera joviana. Note a grande mancha vermelha um pouco à esquerda do centro.

Várias sondas espaciais já visitaram Júpiter. Algumas sobrevoaram e outras ficaram em órbita. A maior parte do que sabemos hoje deste planeta devemos a estes aparatos espaciais.

Primeiras sondas a sobrevoar Júpiter: Pioneer 10 e 11

As primeiras sondas a ultrapassar o cinturão de asteroides foram as Pioneer 10 (1973) e 11 (1974). Esta última chegou a meros 34.000 km da superfície nebulosa do planeta gigante. As primeiras fotos detalhadas de Júpiter e suas luas foram obtidas naquela época.

Voyager 1 e 2: primeira parada Júpiter.

Cinco anos mais tarde, duas sondas Voyager visitaram o planeta em um intervalo de poucos meses. Estas sondas sobrevoaram o planeta gigante e depois prosseguiram para outros destinos, como as sondas Ulysses (1992), Cassini (2000) e New Horizon (2007).

Sobrevoando Júpiter de passagem: Ulysses foi para o Sol, Cassini para Saturno e a New Horizon para Plutão e além.

A primeira sonda a orbitar Júpiter foi a Galileu (1995) que, apesar de uma problema na sua antena, transmitiu dados até 2003. Esta missão também incluiu um pequena sonda atmosférica que penetrou o envoltório gasoso do planeta e transmitiu dados antes de ser esmagada. Em 2016 a sonda Juno entrou em órbita do planeta. Particularmente interessantes foram a fotos de alta resolução dos polos jovianos com seus inúmeros vórtices de gás. Até o momento Juno ainda transmite dados.

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Eclipse Solar na América

Na próxima segunda-feira, 21/08/2017, a sombra da Lua vai percorrer o território dos Estados Unidos da América diagonalmente, do noroeste (no estado do Oregon) até o sudeste (no estado da Carolina do Sul). Numa estreita faixa de uns 100km, o Sol será ocultado totalmente pela Lua durante alguns minutos.

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O Dia do Asteroide

O Sistema Solar é composto do Sol (que concentra cerca de 90% da massa) e uma quantidade enorme de astros menores sem luz própria: planetas, planetas-anões, asteroides e cometas. Geralmente, astros menores que planetas (definidos em 2006) foram tratados, genericamente, por planetas menores, planetoides ou asteroides.

Conhecemos a órbita de quase um milhão de corpos menores (incluindo asteroides e cometas). Existem corpos intermediários, corpos que se assemelham a asteroides, com muitos traços de gases em sua composição, lembrando núcleos secos de cometas, sugerindo que alguns asteroides podem ter se originado de cometas. Foi o caso do astro Chiron, primariamente classificado como asteroide, mas, posteriormente, cogitou-se que seria um cometa, pela presença de material volátil e até pela formação de uma cauda. Outros astros da mesma família, chamados de Centauros, partilham características de cometas.

Diversos corpos menores do Sistema Solar comparados em escala.

A diferença entre cometa e asteroide é basicamente de composição. Os cometas são um amontoado de gases (vapor de água, gás carbônico, entre outros) e poeira, cuja densidade é baixa e natureza volátil. Ao se aproximarem do Sol, os gases sublimam e se forma uma cauda típica. Já os asteroides são corpos mais compactos e secos, compostos de silicatos e metais. Se um corpo destes é atraído para atmosfera terrestre e se aquece devido a interação com o ar, o efeito luminoso é chamado de meteoro. Se o corpo não se consumir todo na atmosfera e chegar a atingir o solo, é chamado de meteorito. Se o brilho do meteoro for muito grande usamos o termo bólido (fireball, em inglês).

A maior parte dos asteroides está entre as órbitas de Marte e Júpiter. Esta região é chamada de cinturão principal e comporta dezenas de milhares de corpos que variam de tamanho, desde alguns metros a centenas de quilômetros.

Em branco os asteroides do cinturão principal. Em verde os troianos (se distribuem à frente e atrás de Júpiter) e em laranja os Hildas que se movem em órbitas internas aos troianos.

O primeiro asteroide foi descoberto em 1801 pelo astrônomo italiano Guiseppe Piazzi (1746-1826). Recebeu o nome de Ceres e mede um pouco menos de mil quilômetros de diâmetro (o maior de todos). No início, foi considerado o planeta novo que faltava entre Marte e Júpiter. Havia um afastamento entre estes planetas que sempre sugeriu a presença de um planeta entre eles. Nos anos de 1802 e 1804, dois outros asteroides foram encontrados: Pallas (aproximadamente 545 km de diâmetro) e Juno (234 km). As descobertas sucessivas de mais corpos celestes nesta região acabaram por tirar o status de planeta de Ceres.

 

Órbitas de asteroides rasantes – NEOs.

Um grupo de asteroides que traz interesse especial para nós terráqueos são os chamados asteroides rasantes, que recebem a sigla inglesa NEOs (Near-Earth Objects). Estes corpos cruzam com certa frequência a órbita terrestre e têm o potencial de atingir o nosso planeta. Temos evidências de que isto já aconteceu no passado e não é impossível que torne a acontecer. Acredita-se, inclusive, que foi um impacto destes que no passado extinguiu os dinossauros.

Um exemplo disto aconteceu em fevereiro de 2013, na cidade de Chelyabinsk (Rússia), sacudida pelo rugido de um corpo de aproximadamente 20 metros que penetrou a atmosfera terrestre a mais de 60.000 km/h. O meteoro explodiu a dezenas de quilômetros de altura e não atingiu nenhuma região habitada. Entretanto, o deslocamento do ar foi forte o bastante para gerar uma onda de choque. Esta onda sonora estilhaçou centenas de janelas de vidro, o que causou ferimentos em mais de 1.200 pessoas. Este foi o maior impacto registrado desde o evento em Tunguska (Rússia) no ano de 1908. Imagine se o impacto fosse direto?

Existem vários grupos que dedicam estudos sobre como reagir numa situação destas. Exemplos destas instituições:

A sonda Dawn, atualmente, nos tem trazido muitas revelações sobre Vesta e Ceres. Pontos claros encontrados no interior de uma cratera (foto abaixo) tem intrigado os cientistas. Muitos segredos dos asteroides já começam a ser desvendados.

Sonda Dawn e o asteroide Ceres: note os dois pontos brilhantes na cratera do asteroide.

No próximo dia 30 de junho é comemorado o Dia do Asteroide. Este evento foi criado em 2015 por um grupo encabeçado pelo astrofísico Brian May (guitarrista da banda de rock Queen), Danica Remy (da Fundação B612), Grigorij Richters (diretor de cinema) e Rusty Schweickart (ex-astronauta da NASA). A ideia era implementar o interesse público e científico nos asteroides com o propósito de criar defesas contra a possibilidade de uma colisão com a Terra. Desde então, várias atividades de divulgação científica têm sido realizadas anualmente em todo mundo. Nós, da Fundação Planetário do Rio de Janeiro, vamos conversar sobre asteroides no dia anterior, 29/6, a partir das 20h, em uma live através do Facebook do Planetário.

Links interessantes:

 

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Saturno em destaque

O planeta Saturno é o segundo maior do nosso Sistema Solar: um gigante gasoso cercado de anéis. Desde que Galileu Galilei desenvolveu a primeira luneta astronômica (1610) o planeta atrai a atenção pelo seu vistoso sistema de anéis, o mais notável entre os demais planetas gigantes (Júpiter, Urano e Netuno).

Oposição de Saturno

No próximo dia 15, em pleno feriado de Corpus Christi, Saturno estará em uma posição especialmente favorável para observação. O planeta gigante estará em linha com a Terra e o Sol. Dizemos que ele estará em oposição, uma vez o que o planeta estará diametralmente oposto ao Sol do ponto de vista da Terra. É nesta ocasião que a distância à Terra é menor (maior brilho aparente e maior tamanho de imagem) e o planeta estará mais tempo visível (durante toda a noite: do pôr ao nascer do Sol). 

Oposição de Saturno
Representação fora de escala das posições do Sol, da Terra e de Saturno durante a oposição.

A sonda Cassini-Huygens

Animação da Sonda Cassini-Huygens.

Faz quase vinte anos que esta sonda complexa foi lançada. A Cassini-Huygens foi produto da colaboração da NASA com a Agência Espacial Italiana, que mais tarde passou a fazer parte da ESA. Curiosamente a sonda não foi enviada em uma rota direta a Saturno. Primeiro a sonda foi enviada para o interior do Sistema Solar na direção de Vênus. A sonda fez duas passagens próximas a este planeta e depois mais uma passagem próxima à Terra. Estas manobras, conhecidas como estilingues gravitacionais, tiveram a função de acelerar a nave usando a gravidade dos planetas para aumentar sua velocidade e encurtar a viagem. A sonda passou por Júpiter antes de chegar ao planeta dos anéis. O destino final da sonda será colidir com Saturno em setembro próximo.

Os anéis

Desde de que foram descobertos os anéis são um desafio. Como explicar sua natureza? Seriam sólidos, gasosos, líquidos? James Clerk Maxwell (1831-79) foi o primeiro a expor uma explicação embasada sobre a natureza dos anéis em 1847: partículas. Isso mesmo, os anéis não são um corpo único, mas sim uma quantidade enorme de pequenos corpos (minúsculas luas de gelo e poeira, podemos dizer) que orbitam no plano equatorial do planeta. Fotos incríveis foram tiradas deste complexo sistema de anéis. Em meio aos anéis são encontradas luas que influenciam a distribuição destas partículas.

As luas

Acima: imagem do disco de Titã com sua atmosfera alaranjada. Abaixo: o satélite visto contra Saturno ao fundo.

Conhecemos 62 luas de Saturno até o momento que escrevo estas linhas. Algumas não passam de simples pedras irregulares, mas algumas luas de Saturno guardam verdadeira diversidade de composição e de forma. O satélite mais interessante do Sistema Solar é Titã. Maior que nossa Lua, Titã é portadora de uma densa atmosfera de nitrogênio. A superfície titânica é coberta de lagos de metano. A sonda Huygens, que viajou acoplada a Cassini, penetrou a atmosfera deste satélite em 2005.

Acima à esquerda: detalhes da superfície gelada de Encélado. Abaixo: imagens das plumas de vapor d´água que o satélite joga no espaço.

Em 2008 descobriu-se que o satélite Encélado emite plumas de vapor de água. Isto sugere fortemente que este satélite tem um oceano sob uma camada de gelo. Até então só se conhecia um outro corpo com esta característica: Europa, satélite de Júpiter.

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A origem dos planetas. Novos mundos, novas perguntas

Há apenas 25 anos, os noticiários sobre as novidades da Astronomia davam conta dos feitos do Telescópio Espacial Hubble, e nenhuma delas contemplava a descoberta de novos planetas. De repente, em 1995, o meio astronômico entrou em ebulição, com a descoberta de um planeta fora do Sistema Solar. Desde então, essa área da Astronomia tornou-se um campo de pesquisa extremamente dinâmico.

Quando eu ainda iniciava a vida acadêmica, durante um projeto de iniciação científica, em 1992, tive a oportunidade de presenciar de pertinho todo esse rebuliço. Sob a orientação do Dr. Celso Batalha, eu investiguei algumas estrelas bem jovens, com prováveis discos ao redor. Esses discos, acreditávamos, eram os “berçários” não só das estrelas, mas também de planetas. Fizemos diversas observações e obtivemos resultados interessantes que renderam um artigo internacional, mas nenhuma evidência concreta de planetas girando ao redor das estrelas. Uma estrela em particular – TW Hydrae –,  era um  alvo muito interessante, por ser parecida com o nosso Sol. No entanto, mostrou-se um verdadeiro “labirinto”, pois apresentava um comportamento errático, que impedia qualquer tentativa de interpretação única para o que víamos.

“Chegará um tempo em que enxergaremos mais distante. Poderemos observar planetas como a Terra.”

-Christopher Wren, astrônomo inglês (1657)

Em 6 de outubro 1995, o quadro começou a mudar após o anúncio da descoberta de um planeta orbitando a estrela 51 Pegasi. De forma gradual outros planetas foram descobertos. Com o desenvolvimento de técnicas e instrumentos cada vez mais precisos, presenciamos um verdadeiro boom de planetas. Hoje, o número de planetas conhecidos fora do Sistema Solar – os chamados exoplanetas –, ultrapassa 3.500. Esse número deve ser muito maior, pois as técnicas ainda privilegiam alguns tipos de planetas. 

Talvez a quantidade de exoplanetas seja surpreendente para você. Acontece que os planetas são subprodutos naturais no processo de formação de estrelas. Isso mesmo, é quase inevitável! Nesse sentido, os exoplanetas são fascinantes pois podem nos ajudar a responder questões sobre o nosso próprio Sistema Solar.

O emprego de técnicas e instrumentos modernos gerou uma abundância de dados sobre as galáxias e as estrelas, que possibilitou o desenvolvimento de modelos e teorias sobre a formação de estrelas e de planetas.

As estrelas se formam no interior de enormes nuvens de gás e poeira, chamadas nebulosas de formação estelar. Existem várias por aí, sendo uma das mais famosas, a Nebulosa de Órion. Ela está próxima das Três Marias e, numa noite sem Lua e num local longe da luz urbana, pode ser vista até sem telescópio. 

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Constelação de Órion sobre El Castillo, templo de Kukulkan, Chichen Itza/México. A Nebulosa de Órion está indicada por um traço amarelo. Crédito da foto: Stéphane Guisard.

No interior das nebulosas de formação estelar, algumas regiões podem apresentar maior concentração de gás e poeira, dando início ao processo de contração gravitacional. A contração cria objetos cada vez mais densos, verdadeiras aglomerações de matéria. Ao mesmo tempo, o movimento da nuvem é transferido para esses núcleos, que ganham cada vez mais velocidade de rotação, como resultado da contração.

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Nebulosa de Órion. Fotografia obtida no Planetário da Gávea por Fernando Vieira e Maurício Arbex em 20/03/2017.

A rápida rotação faz com que o material se achate, na forma de um disco. Em seu centro, bem mais quente, tem início a formação de uma estrela. No disco, ao redor do núcleo, o material aos poucos se aglomera em algumas regiões, formando objetos cada vez maiores – os planetesimais. Por essa razão esses discos são chamados discos proto-planetários.

Com a estrela formada, sua radiação expele boa parte do gás contido no disco, restando apenas as estruturas mais compactas, como os planetas. Nosso Sistema Solar apresenta algumas evidências de ter passado pelo processo de expulsão de gás. Por exemplo: os planetas mais próximos do Sol são menores e compostos, em sua maior parte, por rochas e metais. Já os planetas mais distantes do Sol são gigantes gasosos.

Fora do Sistema Solar, evidências da existência de discos proto-planetários não faltam. Por exemplo, na própria Nebulosa de Órion, o Telescópio Hubble encontrou vários deles. Veja abaixo alguns.

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Discos proto-planetários, na Nebulosa de Órion, observados pelo Telescópio Espacial Hubble.

Um dos resultados mais emblemáticos para mim foi obtido há exatamente um ano, quando o recém-construído observatório ALMA anunciou observações fresquinhas, com uma técnica que não era disponível em 1992. E advinha de quem? Isso mesmo, TW Hydrae. E como a imagem abaixo não deixa dúvidas, temos um disco proto-planetário ao redor da estrela. E, naturalmente, indicações claras da presença de objetos orbitando a estrela (os “vazios” no disco).

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Imagem do disco proto-planetário ao redor da estrela TW Hydrae obtida pelo ALMA. Crédito da imagem: S. Andrews (Harvard-Smithsonian CfA), ALMA (ESO/NAOJ/NRAO).

Esse é um caso emblemático para mim, mas muitos outros sistemas similares já foram descobertos.

Já chegamos num estágio da ciência em que é possível observar planetas orbitando outras estrelas. Estamos apenas começando, mas os resultados já são impressionantes! A imagem abaixo, divulgada em janeiro deste ano, é uma sequência de imagens obtidas ao longo de sete anos da estrela HR 8799 e de quatro planetas girando ao seu redor.

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Estrela HR 8799 e seus quatro planetas. A estrela foi “bloqueada” para que o seu brilho não ofuscasse o dos planetas. O sistema está distante, 129 anos-luz, e se encontra na constelação do Pégaso. Crédito: Jason Wang and Christian Marois.

Há cerca de um mês, a NASA divulgou a última novidade do Telescópio Espacial Spitzer: a descoberta, pela primeira vez, de um sistema com sete planetas do tamanho da Terra girando ao redor de uma estrela – o sistema Trappist 1. E tem mais, três dos planetas estão localizados na zona de habitabilidade – uma região ao redor da estrela central na qual planetas rochosos têm boa probabilidade de possuir água líquida!

Os dados sobre esse sistema planetário indicam que os planetas estão sujeitos a forças de maré intensas, como resultado de sua proximidade à estrela central. Isso significaria que o mesmo lado do planeta está perpetuamente voltado para o Sol e, portanto, neste lado é sempre dia.

This infographic displays some artist's illustrations of how the seven planets orbiting TRAPPIST-1 might appear — including the possible presence of water oceans — alongside some images of the rocky planets in our Solar System. Information about the size and orbital periods of all the planets is also provided for comparison; the TRAPPIST-1 planets are all approximately Earth-sized.
Ilustração dos sete planetas orbitando o sistema TRAPPIST-1, incluindo a possibilidade de oceanos de água. Embaixo, planetas rochosos do Sistema Solar. Crédito: NASA.

 

Após esses 25 anos, a pergunta já não é se os exoplanetas existem, mas quantos deles têm características semelhantes às da Terra e possam, eventualmente, abrigar alguma forma de vida. Novos rebuliços nos aguardam?

 

 

 

 

 

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Júpiter em oposição

 

Por Paulo Cesar R. Pereira, astrônomo

 

 

Júpiter é o maior planeta do Sistema Solar, e também, o segundo planeta mais brilhante, depois de Vênus. A observação por meio de um pequeno telescópio permite a observação da sua atmosfera, totalmente coberta por nuvens que envolvem o planeta, inclusive a grande “mancha vermelha”. 

 

Com pequenos instrumentos é também possível observar seus quatro maiores satélites (Io, Europa, Ganimedes e Calisto), e refazer as famosas observações realizadas por Galileu Galilei em 1609.

 

Ao longo dos meses de março e abril, teremos condições bem favoráveis para a observação desse belo planeta. Isso por conta do fenômeno chamado “oposição de Júpiter”, que atingirá o seu ápice no dia 8 de março próximo.

 

Durante a “oposição de Júpiter”, que ocorre a cada 13 meses aproximadamente, Júpiter fica oposto ao Sol em relação à Terra. Como resultado, Júpiter fica bem mais brilhante e o seu tamanho aparente aumenta como resultado da aproximação (Júpiter estará a 663 milhões de quilômetros da Terra). Além disso, o fenômeno faz com que o planeta gigante seja visível ao longo da noite inteira.

 

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O planeta poderá ser observado mesmo sem o uso de instrumentos, bastando olhar na direção do leste (nascente), a partir das 19h15min. A carta celeste abaixo apresenta a localização de Júpiter no dia 8 de março às 21h. Aproveite a ocasião para identificar algumas constelações. Boa observação!

 

Por Paulo Cesar R. Pereira, astrônomo

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Descobriram o nono planeta?

Para resumir: não, não foi descoberto astro algum. Então, o que aconteceu?

Recentemente, astrônomos do renomado centro de pesquisas Caltech (Mike Brown e Konstantin Batygin) publicaram um artigo sugerindo a existência de um planeta tão grande quanto Netuno e muito mais distante. Este planeta hipotético, informalmente chamado de “Planeta X” ou “Nono Planeta”, foi sugerido como solução para o arranjo das órbitas de seis astros do chamado cinturão de Kuiper. Este cinturão é composto por diversos pequenos astros gelados além da órbita de Netuno. Plutão é o maior astro deste cinturão.

Isso é resultado de poderosas simulações matemáticas que tentam justificar o movimento de certos astros transnetunianos descobertos nos últimos dez anos. Estes objetos foram classificados em um grupo denominado em inglês “Detached Objects” (algo como “Objetos Separados” em uma tradução livre). Estes astros recebem este nome por terem órbitas suficientemente destacadas da influência gravitacional imediata de Netuno.

Não é a primeira vez que alguém sugere a existência de planetas além de Netuno. Em 2012 um brasileiro, o astrônomo Rodney Gomes, também fez cálculos sugerindo a existência de um planeta dentro do cinturão responsável por particularidades do movimento destes corpos. Ano passado, os astrônomos Chad Trujillo e Scott Sheppard publicaram um artigo na famosa revista Nature discutindo sobre um dos objetos usados na pesquisa de Brown e Batygin. Eles também sugeriram a existência de um “Nono Planeta” influenciando as órbitas dos corpos mais externos do cinturão de Kuiper.

Nem os telescópios mais potentes têm alguma imagem que confirme estes cálculos teóricos por enquanto. O telescópio japonês Subaru é um dos possíveis instrumentos para começar esta busca. Existem astrônomos ainda céticos com relação à sua existência. Agora é esperar que os diversos programas de rastreio de objetos celestes confirmem ou não a existência deste nono planeta.

Assista ao programa Space Today sobre o assunto (em português):

Brasileiro que também pesquisa a existência de um planeta transneptuniano:
http://noticias.terra.com.br/ciencia/astronomo-brasileiro-da-novo-rumo-a-busca-pelo-planeta-x,28a98116492da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html

Telescópio Subaru
https://pt.wikipedia.org/wiki/Telesc%C3%B3pio_Subaru

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Características Externas dos Meteoritos

A grande maioria dos meteoritos encontrados são pretos e mais pesados que as pedras terrestres. Isso ocorre porque apresentam grande quantidade de ferro e níquel em sua composição.

Existem três tipos básicos de meteoritos: os sideritos, compostos basicamente de ferro e níquel, algo em torno de 98%, os aerolitos, compostos de rochas, e os siderolitos, compostos de rocha, ferro e níquel.

As pessoas que encontram um meteorito, em geral procuram pedras negras e pesadas, que destoam das rochas do local. Mostraremos, abaixo, algumas características que podem ser observadas sem auxílio de instrumento, não oferecendo detalhes.

Os meteoritos apresentam as formas mais variadas, dependendo basicamente de sua estrutura original e de sua entrada na atmosfera. Freqüentemente são encontradas formas piramidais e cônicas, porém os pequenos meteoritos são predominantemente irregulares.

Alguns meteoritos, devido a sua posição ter se mantido constante durante a passagem pela atmosfera, nos mostram dois lados bem distintos. São os meteoritos orientados, muito raros, que estatisticamente compõem apenas 5% do total de meteoritos rochosos e 30% dos meteoritos ferrosos encontrados.

Todos os meteoritos que foram recuperados pouco tempo depois de sua queda, apresentam em sua superfície uma crosta de fusão, uma fina camada preta, que contrasta com a cor encontrada em seu interior. Essa camada é normalmente muito fina, em geral com menos de 1 mm de espessura, podendo algumas vezes chegar a poucos milímetros, sendo mais fina na parte da frente que na parte detrás do meteorito.

A crosta pode ser perdida rapidamente na superfície da Terra devido a vários fatores atmosféricos, como, por exemplo, ações das chuvas e dos ventos. No caso dos meteoritos ferrosos, principalmente, a perda da crosta deve-se à oxidação do ferro.

Além da crosta, na superfície de alguns meteoritos são observadas algumas depressões suaves, que, para um observador, parece ter sido esculpida com os dedos, como se faz com massa de modelar: são os regmalitos. Essas depressões são provocadas pela presença, próximo à superfície do meteorito, de nódulos de minerais com ponto de fusão muito baixo, ou seja, que derretem em uma temperatura muito menor que a dos demais componentes do meteorito. Durante a entrada na atmosfera, o processo de ablação faz com que os nódulos derretam e, assim, sejam esculpidas as depressões.

Falemos de tamanhos de meteoritos. É necessário que fique bem claro que, provavelmente, não se consegue recuperar todos os pedaços de um meteorito, no caso de uma fragmentação. Além disso, o meteorito original passou pela atmosfera, o que afeta sua forma.

Temos meteoritos de vários tamanhos, desde os micrometeoritos, de dimensões que não chegam a um décimo de milímetro e caem na superfície terrestre numa taxa média de 10.000 toneladas anuais, passando por pequenos fragmentos de décimos de milímetro até alguns centímetros, até grandes meteoritos, com alguns metros. Estes últimos podem ser observados em museu, como, por exemplo, o Bedengó, maior meteorito brasileiro que se encontra em exposição permanente no Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Apenas essas características não são suficientes para caracterizar um meteorito. Vários testes são feitos e só depois de um resultado conclusivo é que se cataloga o objeto encontrado. Porém, graças a essas características é que pessoas na tentativa de encontrar pedras interessantes ajudam os cientistas a obter novos tipos de meteoritos e, assim, novas pesquisas podem ser realizadas com o intuito de conhecer mais sobre a composição da nuvem primordial que originou o Sistema Solar.

Este é o sexto texto de uma série sobre meteoritos.

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Cometa McNaught (C/2006 P1)

O cometa descoberto em agosto de 2006 pelo astrônomo australiano Robert H. McNaught fez um grande espetáculo no hemisfério norte, e agora começa a se mostrar para nós aqui do hemisfério sul.  Prever o brilho de um cometa ainda é temerário, e este surpreendeu com seu aumento de brilho logo que se aproximou do Sol, quando foi possível vê-lo em plena luz do dia.

A melhor maneira de ver o McNaught nos próximos dias (até 18/01 aproximadamente) será próximo ao poente (19h47min, horário de verão), logo assim que o Sol se põe, como um ponto luminoso seguido de uma cauda em “V”, com comprimento equivalente a duas Luas cheias. À medida que os dias passam, ele se afasta do Sol e seu brilho diminui, pondo-se lentamente mais tarde a cada dia.  Este astro se mostrará à noite em pouco mais de uma semana, porém estará cada vez menos brilhante deixando de ser visível a olho nu antes de terminar a primeira semana de fevereiro (se seu brilho continuar a se comportar como o previsto).

O observador deve ficar atento, pois o comportamento deste cometa faz com que de uma noite para outra possa haver uma variação de brilho considerável.  Provavelmente, as melhores noites de observação serão poucas; toda oportunidade será preciosa.  No final da próxima semana, será necessário um binóculo ou pequeno telescópio, além de uma carta celeste, para distinguir o McNaught entre as estrelas.

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O “Décimo” Planeta e a Importância das Aspas

Recentemente, foi noticiada a descoberta de um corpo maior que Plutão e que seria o “décimo” planeta do Sistema Solar. Esse corpo recebeu, temporariamente, o nome 2003 UB313. É interessante analisarmos com cuidado essa notícia e repararmos em um detalhe sutil no que diz respeito à sua divulgação.

Antes de mais nada: não existe um décimo planeta! Temos ainda no Sistema Solar nove planetas, e devemos nos dar por satisfeitos, porque se Plutão fosse descoberto hoje também não seria considerado um planeta. Quem decide o que é planeta ou não é uma entidade chamada União Astronômica Internacional1.

Em 1951, o astrônomo Gerard Kuiper sugeriu que pequenos corpos deveriam ser encontrados em órbitas maiores que a órbita de Netuno, em uma região que mais tarde seria batizada de Cinturão de Kuiper. Sua teoria baseava-se na idéia de que o disco de matéria que formou os planetas do Sistema Solar não deveria ter um limite muito bem definido, mas sua densidade provavelmente ia diminuindo gradativamente do centro para as regiões externas.

O Cinturão de Kuiper foi teoria até o ano de 1992, quando se teve a primeira evidência observacional. Plutão foi descoberto em 1930, quando não havia ainda a idéia de Kuiper; por isso o consideramos planeta. Se Plutão fosse descoberto hoje, não seria classificado como planeta, mas como um objeto do cinturão de Kuiper, assim como Sedna, Quaoar, o recém-descoberto 2003 UB313, e muitos outros.

Os corpos do Cinturão de Kuiper formam um grupo muito característico de objetos que merece uma classificação à parte. Rochosos, pequenos e gelados, esses corpos formaram-se em condições diferentes das condições em que se formaram os planetas do Sistema Solar.

O site da Agência Espacial Norte-Americana (NASA) divulgou a notícia sob o título: Descoberto “10o Planeta”. A revista ‘Sky&Telescope’ utilizou: Astrônomos Descobrem “10o Planeta”. Aqui no Brasil, a notícia circulou sob títulos semelhantes, mas em alguns veículos de comunicação, com grande circulação nacional, não houve o cuidado de se colocar a expressão “10º Planeta” entre as imprescindíveis aspas. Não foi um descuido apenas nosso, muitos sites americanos e europeus também cometeram essa sutil e grave falha.

Com o tempo, melhoram as tecnologias para aquisição de imagens astronômicas e podemos enxergar objetos cada vez menores e cada vez mais distantes. Sem dúvida ainda teremos muitas outras descobertas de objetos do Cinturão de Kuiper, que poderemos chamar, com o devido cuidado, de “planetas”. Sempre entre aspas.

1- Esse texto foi escrito na época da descoberta de 2003 UB313, em 2005 (quando foi confirmada a existência desse objeto em fotografias obtidas em 2003). O texto já deixa claro que existem diferenças marcantes entre planetas e objetos do cinturão de Kuiper, e adverte o leitor de que Plutão não seria considerado planeta se sua descoberta tivesse sido recente. Um ano depois, em 24 de agosto de 2006, a União Astronômica Internacional criou a nova categoria planetas-anões, na qual foram classificados Plutão, 2003 UB 313 e outros corpos. Leia sobre essa nova classificação no Sistema Solar no artigo “Plutão e Sua Nova Família”. Poucos dias depois, 2003 UB313 foi batizado oficialmente de Éris.