WORLDBUILDING: DUNA


O norte de Duna.

Um mundo fundamental para o universo conhecido, pois de somente lá vem uma substância-chave, capaz de executar o voo interestelar mais veloz que a luz. Um planeta inóspito, de clima desértico, que testa os fiéis; agrupados em grupos tribais isolados, extraindo essa substância ao risco de sua própria vida pela presença de gigantescos vermes que vivem sob a areia do deserto, tudo para o lucro de nobres estrangeiros que governam o planeta e a manutenção de uma civilização que se espalha pelas estrelas.

E este é o cenário de uma das maiores sagas da ficção científica: “Duna” (1965), de Frank Herbert.

Duna é uma história singular. Quando ninguém falava em diversidade, e o futuro parecia uma versão agnóstica (na melhor das hipóteses) ultra-tecnológica do ethos Ocidental, Herbert falava de um mundo inspirado no Oriente Médio e Península Arábica, seja em visual, etnias, costumes e religião, em que ainda se pese o espírito de época dos anos 60, onde autores mesclavam poderes psíquicos, drogas e espiritualidade – e até mesmo divindade, no caso de “Duna”.


Shai-Hulud, o Avô do Deserto: que sua passagem purifique o mundo.

Politicamente, a situação ainda envolvia uma monarquia à frente deste autêntico império interestelar, com direito a Casas Nobres conspirando uma contra a outra, uma ordem semi-religiosa de mulheres com poderes psíquicos também conspirando por sua própria agenda, que inclui a criação de um messias genético que irá alcançar o próximo patamar de evolução da Humanidade. A criação se dará pela manipulação de certas linhagens de sangue, pertencentes a Casas Nobres-chave através de séculos, tendo como ápice as arquirrivais Atreides e Harkonnen, que é quando se dá o romance inicial. Mas, até lá, durante e depois, muita intriga política ocorre, um dos marcos de toda a saga.

Frank Herbert estudou cinco anos para escrever este, que foi logo seu primeiro livro. Tudo começou com um artigo nunca concluído para o Departamento Americano de Agricultura, sobre a utilização de vegetação específica para estabilizar dunas que potencialmente podiam engolir rodovias, infra-estrutura e mesmo cidades inteiras, em um processo contínuo de desertificação do ambiente. 

Como resultado, Duna provavelmente é o primeiro romance de FC que fala de ecologia (enquanto um sistema complexo, e não somente escassez): o cenário não está ali somente para figurar algum exotismo. Tudo – como, por exemplo, a importância da água – assume aspectos sociais e simbólicos importantes para a mentalidade envolvida dos personagens.

E temos, é claro, a especiaria – aquela pela qual o Império funciona. Não diferente do petróleo em nosso mundo. Herbert, nos anos 60, escrevia uma metáfora sobre a dependência e os custos no meio -ambiente com a exploração de petróleo, assim como povos desprivilegiados nas zonas de extração, joguetes dos poderes que o exploram. Há uma causa-e-consequência ecológica, política e social muito bem construída.

Herbert também desenvolve a História de 10.000 anos do universo, conforme se lê nos apêndices do primeiro livro; dando a impressão de um cenário consistente, o que só faz aumentar o envolvimento com a história. Imaginando quem seriam nossos descendentes daqui a milhares e milhares de anos, ele se utiliza não só de extrapolações das religiões de hoje, mas também de nomes de pessoas e lugares, dando um sentido que fique fácil para intuir e identificar sobre o que ou quem se trata, evitando uma possível alienação do leitor ao que foi criado, mesmo se passando tanto tempo no futuro.


Capas de edições de Duna, no Brasil: pela Nova Fronteira e as da editora Aleph.

Como muitas vezes na ficção científica, um planeta inventado orbita uma estrela existente. Sendo assim, Arrakis é o terceiro planeta a partir de Canopus, ou Alfa Carina, a 310 anos-luz da Terra – uma vizinhança fortuita para descobrir a tão essencial especiaria. Na época em que Herbert escreveu o romance, as estimativas da distância dela para nós variavam bastante, podendo estar entre 96 até 1.200 anos-luz.

Canopus é a segunda estrela mais brilhante nos céus do hemisfério sul, depois de Sirius. Está na bandeira do Brasil, onde ela representa o estado de Goiás.

Pelo reconhecimento da importância da obra, uma característica topográfica de Titã, a maior lua de Saturno, é a Arrakis Planitiae.


“De um relatório secreto interno da Guilda: ‘Quatro planetas nos chamaram a atenção…’”

“Duna” gerou diversas sequências literárias, cinco pelo próprio Frank Herbert; e mais tantas outras, de algumas décadas para cá, pelo filho de Frank Herbert, Brian, em parceria com o escritor e roteirista Kevin J. Anderson, mostrando aquele universo antes dos eventos do livro e sequências originais, tendo como base as notas de seu pai. 

Ainda gerou jogos eletrônicos, rpg e tabuleiro, além de duas mini-séries para a televisão. Mas sua adaptação mais famosa foi a do cinema em 1984, pelo cineasta David Lynch, em um resultado que não agradou a crítica e nem exatamente os fãs, mas, talvez pelos motivos errados, não deixou de impactar.

Assim como “O Senhor dos Anéis”, foi tido por muito tempo como muito difícil para se adaptar às telas. Lynch não foi o primeiro a querer adaptá-lo. Um projeto nos anos 70 não decolou, virando a base para o documentário “Duna de Jodorowsky”, idealizado pelo roteirista de HQ e cinema Alejandro Jodorowsky e que reunia nomes por trás das câmeras como H. R. Giger, Moebius e Salvador Dalí.


Opções de elenco nas três versões cinematográficas: a planejada nos anos 70, e as de 1984 e 2020.

Um novo filme de “Duna” está sendo realizado em Hollywood, com estreia prevista para 2020, sob a batuta de Denis Villeneuve (“A Chegada”, “Blade Runner 2049”). Vejamos se fará jus à história original, assim como ao fantástico cenário criado por Frank Herbert.

Hoje estivemos em Alfa Carina III. Próxima parada: Alfa Sagitário III.

Luiz Felipe Vasques

Rio, 28/08/2019

Links externos:

Site dos autores e responsáveis legais

https://www.dunenovels.com/

Wiki do fandom:

https://dune.fandom.com/

Tolkien, Herbert e worldbuilding

Dos mesmos criadores do vídeo anterior, sobre os 3 alertas de Herbert em sua obra:

https://www.youtube.com/watch?v=4NYO7aoOOmk https://www.youtube.com/watch?v=C6_5dKRudiY