Nossos Astros na Ficção Científica: Urano, Netuno e Plutão


Urano, Netuno e Plutão.

Na série dos Nossos Astros na FC, hoje falaremos de Urano, Netuno e Plutão.

Dado o relativo baixo volume de obras a respeito dos dois últimos planetas externos e de Plutão, preferimos por um artigo mais recheado hoje. Comecemos por Urano.

Urano – e nem os outros dois mundos – não passou pela especulação dos povos antigos, nem figurou em alguma sátira ou outro comentário durante o fim do paganismo e o estabelecimento da Era Cristã. Isto porque, de Urano em diante, o que fosse descoberto só o seria por telescópios poderosos o bastante para vê-los, em vez da observação a olho nu que sempre nos revelou de Mercúrio a Saturno. Quando Urano foi descoberto, em 13 de Março de 1781 por Sir William Herschel – o mesmo que fez importantes descobertas em Saturno –, na verdade o que ele fez foi confirmar avistamentos anteriores por telescópio que, graças à baixa luz refletida do planeta devido à distância do Sol, além de características de sua órbita, nunca se conseguia realmente firmar se o que era visto era um cometa ou o quê.

De imediato, o planeta recém-descoberto ficou sem um consenso para o nome (Herschel quis homenagear seu patrono, o Rei George III da Inglaterra, chamando-o Georgium Sidus – a Estrela de George, mas as demais nações tinham objeções compreensíveis quanto a isso), até que Johann Elert Bode propôs em 1782 o nome do titã Urano, ficando então na sequência a partir do Sol: Marte, (filho de) Júpiter, (filho de) Saturno, (filho de) Urano, assim observando tanto genealogia quanto temática mitológica.

Ao redor do mundo, outras culturas deram nomes próprios ao 7o planeta: exemplos constituem  “Estrela de Urano” ou “Estrela da Morte” na Tailândia, “Estrela Rei do Céu” (China, Japão, Coreia e Vietnã) e “Hele‘ekala” no idioma havaiano, em um neologismo derivado do nome de Herschel.

Urano é um planeta como os demais gigantes gasosos, de diversas luas (27 conhecidas, 5 grandes), magnetosfera e mesmo um sistema de anéis – porém mais escuros e menores do que os de Saturno. Seu diâmetro é 4 vezes o da Terra e sua gravidade equivalente a 0,886 da nossa. Seu dia é de pouco mais de 17 horas e o ano equivale a 84 dos nossos. Tem uma inclinação de eixo bastante acentuada, com quase 98o em relação à elíptica, deixando seus polos onde os planetas normalmente têm suas zonas equatoriais, cada um deles alternando entre dias e noites de 42 anos.

Na Ficção Especulativa, a primeira citação literária cabe a um autor anônimo que assina como “Mr. Vivenair”, escrevendo “A Journey Lately Performed Through the Air in an Aerostatic Globe, Commonly Called an Air Balloon, From This Terraquaeous Globe to the Newly Discovered Planet, Georgium Sidus” em 1784, apenas 3 anos depois da descoberta do planeta e ainda com o nome dado por Herschel.

Na “Era Pulp”, na série de “Buck Rogers” (1928) Urano era descrito como tendo domos ambientais na superfície e robôs.

Stanley G. Weinbaum escreve “The Planet of Doubt” (1935), onde um nevoeiro perpétuo cobre o polo norte de Urano, e o casal de protagonistas luta contra a estranha fauna local.

“Umbriel” (1936), de Donald A. Wollheim, é tanto uma lua de Urano quanto o título de um conto ultracurto, onde lemos um relato de um astronauta que, ao ir reivindicá-la, acaba descobrindo que é o cadáver de algum monstro colossal vindo das profundezas do espaço, habitado por enormes vermes que devoram sua carcaça, ficando o alerta para que evitem a “lua” a todo o custo: o astronauta descobre evidência que os vermes têm mestres inteligentes, ocultos em algum lugar nas profundezas do monstro…


Urano, pelo telescópio espacial Hubble. Os pontos brilhantes na atmosfera são tempestades.

“Snowbank Orbit” (1962), de Fritz Lieber, utiliza a ideia de aerofrenagem na atmosfera de Urano por naves mudando de trajetória, fugindo de alienígenas.

Ramsey Campbell, autor lovecraftiano, em “Insects of Shaggai” (1964) descreve L’gy’hx (Urano) como sendo habitado por seres metálicos de formato cúbico com múltiplas pernas.

“First Contact?” (1971), de Hugh Walters, é sobre duas naves terrestres investigando sinais de rádio alienígenas vindos de Ariel, lua de Urano. Um alienígena é encontrado, mas as tripulações divergem sobre as intenções dele.

“Lunar Rainbow” (nome inglês, 1978), de S. I. Pavlov, conta sobre astronautas na lua Oberon que desenvolvem estranhos superpoderes, causados por micro-organismos alienígenas inteligentes de outro sistema solar.

Em “Blue Mars” (1997), por Kim Stanley Robinson, duas luas são citadas: Miranda e Titânia. Em Miranda, dois personagens a visitam, que é preservada pelos colonos do sistema uraniano como uma reserva natural. Em Titânia a colônia é descrita contando como humanos se adaptaram à luz local e baixa gravidade.

Geoffrey A. Landis escreve o conto “Into the Blue Abyss”, nele discutindo a busca de formas de vida em Urano, para sua coletânea “Impact Parameter and other Quantum Fictions” (2001).

“Dead Man Walking” (2007), de Paul McAuley, conta sobre um androide assassino em Ariel, descrita abrigando cidades, uma prisão-fazenda e uma colônia penal.


Capas de algumas publicações com histórias se referindo a Urano.

Netuno foi observado por telescópio em 23 de Setembro de 1846 por Johann Galle, após uma série de previsões matemáticas por Alexis Bouvard e Urbain Le Verrier baseadas em mudanças não esperadas na órbita de Urano, sugerindo a existência de alguma força gravitacional distante mais além que pudesse influenciá-la. Foi o primeiro planeta a ser descoberto dessa forma, em vez de observação óptica direta. O nome veio após certa indecisão que também envolveu uma disputa da autoria da descoberta do planeta, e o deus romano dos mares ganhou seu planeta.

Em outras culturas, variações do nome ou do conceito são utilizados: China, Japão, Vietnã e Coreia o tratam por “Estrela do Rei do Mar”, na Grécia é chamado “Poseidon” (afinal, é a versão helênica do mesmo deus), entre os Maori é “Tangaroa”, seu próprio deus do mar; entre os povos de língua asteca é “Tlāloccītlalli”, derivado de Tlāloc – deus da chuva, fertilidade do solo e água.

Netuno é o último dos gigantes gasosos e, até o momento, o último corpo chamado de planeta do sistema solar. Apresenta 14 luas (conhecidas até agora) ao seu redor e um sistema de anéis (bem mais fracos do que os de Saturno). É tão distante do Sol que um ano de Netuno equivale a quase 165 dos nossos, mas seu dia é mais curto do que o nosso, com pouco mais de 16 horas. Possui 1,14 vezes a nossa gravidade e tem quase 3,9 vezes o diâmetro da Terra.


Netuno, com a tempestade conhecida como a Grande Mancha Escura, e algumas de suas luas.

H. G. Wells escreve “The Star” em 1897, onde Netuno é destruído após colidir-se com outro corpo supermaciço que zera sua velocidade orbital, e os destroços caem em direção ao Sol, errando nosso mundo por pouco.

Na saga de Olaf Stapledon sobre a História futura da Humanidade, “Last and First Men” (1930), nossa espécie no futuro distante busca em Miranda, lua de Netuno, seu novo lar após a expansão do Sol ameaçar nosso planeta.

Um dos primeiros contos a respeito de Netuno é “Vanguard to Neptune” (1932), de J. M. Walsh, em que quatro raças diferentes disputam a posse do planeta.

Clark Ashton Smith, propõe em “The Family Tree of the Gods” (1944) que Netuno seja habitado por seres similares a fungos, chamando seu próprio mundo de Yaksh; dentro do “Cthulhu Mythos”.

“Nearly Neptune” (1969), de Hugh Walters, conta sobre uma tripulação em apuros após o incêndio dentro de sua nave, enquanto rumam ao oitavo planeta. É parte de sua série da “UNEXA” (United Nations Exploration Agency).

No filme “O Enigma do Horizonte” (1997), a ação é a bordo da Event Horizon – nave experimental que em 2047 faz o primeiro voo mais veloz que a luz da Humanidade – tendo como cenário de fundo Netuno, ao redor do qual está em órbita decadente.

Na história “Vainglory” (2012) de Alastair Reynolds, a lua de Netuno, Náiade, é propositalmente destruída para que o planeta possa contar com um magnífico sistema de anéis, substituindo os da vida real que se apresentam apenas em arcos, dado a ação da gravidade de uma das luas.


Cena do filme O Enigma do Horizonte, com uma tempestade em Netuno vista de órbita.

Por 74 anos, desde a sua descoberta em 1930 até a redefinição de “planeta” em 2006 (enquanto termo astronômico), Plutão foi considerado o nono planeta a partir do Sol. A literatura fantástica o tratou como tal por todo este período, e portanto ele está no artigo de hoje, na série dos Nossos Astros na Ficção Científica.

Devido ao seu tamanho diminuto (entre outros fatores), ele foi reclassificado para “planeta-anão”: tem menos de 1/5 do diâmetro da Terra e 2/3 do diâmetro de nossa Lua, o que não impediu de arranjar para si 5 luas (conhecidas), mesmo com sua baixa gravidade (0,06 da Terra). Seu dia equivale a mais de 6 dos nossos e o ano plutoniano leva 248 anos terrestres para completar, tamanha é sua distância do Sol. É um mundo de rochas e gelo, com uma atmosfera muito, muito tênue.


Foto da sonda New Horizons (2015): crepúsculo em Plutão.

Plutão foi descoberto de maneira similar a Netuno: observando-se perturbações na órbita do planeta anterior e calculando onde deveria estar a fonte dessas perturbações. Pesquisas ainda no Século 19 levaram a um esforço que culminaram em sua descoberta, confirmada no dia 13 de Março em 1930 por Clyde Tombaugh.

Seu nome veio por sugestão de uma menina de 11 anos, Venetia Burney, interessada em mitologia; cujo avô, bibliotecário aposentado da Universidade de Oxford, conseguiu passar a sugestão adiante. Entre outros nomes candidatos, ganhou Plutão – o deus do submundo greco-romano. O nome tinha ainda a vantagem de começar pelas letras P e L, iniciais do astrônomo Percival Lowell, que liderara uma extensa pesquisa para determinar o paradeiro do que chamava “Planeta X” duas décadas antes; assim determinando seu símbolo astronômico. Em outras culturas, a alusão do “deus do submundo/morte” é mantida, daí sendo chamado “Meiōsei” (japonês), “Whiro” (maori) e “Yama” (hindi), etc.

Plutão fez sucesso, na época: é dito que Walt Disney batiza o cachorro Pluto em homenagem, e o químico Glenn T. Seaborg chama de plutônio o novo elemento que ele ajuda a descobrir. Em tempos recentes, Plutão voltou a receber atenção da mídia, primeiro em 2006 pelos motivos acima, e depois pelas descobertas e fotos espetaculares da sonda New Horizons em 2015.

Na Ficção Científica, a primeira menção conhecida ao novo planeta é de 1931, “In Plutonian Depths”, de Stanton A. Cobletz.

H. P. Lovecraft escreve “Um Sussurro nas Trevas” (1931), em que Plutão é chamado Yuggoth, base para os alienígenas chamados Mi-Go. Lovecraft desenvolvia a história, quando Plutão foi descoberto.

“A Pirata Espacial” (1935), de Stanley G. Weinbaum, é onde piratas operam a partir de uma base em Plutão – a história é conhecida por descrever como é possível correr no vácuo durante algum tempo, em vez de morrer instantaneamente (não recomendamos que se procure tentar isso…).

“Pipeline to Pluto” (1945), de Murray Leinster, descreve uma linha de abastecimento interplanetária da Terra até o assentamento colonizador em Plutão de naves que partem diariamente. A história envolve um grupo de criminosos que ajuda fugitivos de forma geral a embarcarem clandestinamente, estes ignorando que, apesar de naves chegarem todos os dias em Plutão, é depois de uma viagem de dois anos.


Plutão e sua lua Caronte: antes (Hubble, 2010) e depois (New Horizons, 2015).

“The Secret of the Ninth Planet” (1959), de Donald A. Wollheim, conta sobre a origem extra-solar de Plutão e Caronte, sua maior lua.

“Guerra Sem Fim” (1974), de Joe Haldeman, mostra Plutão como uma base de treinamento militar.

Em “Inherit the Stars (1977), de James P. Hogan, Plutão e o cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter são o que restam de um antigo planeta destruído em uma guerra.

“Icehenge” (1984), de Kim Stanley Robinson, um misterioso monumento é encontrado no polo norte de Plutão.

“Goose Summer” (2001), de Stephen Baxter, conta sobre como criaturas similares a flocos de neves se reproduzem durante o periélio (aproximação máxima do Sol de um planeta em sua órbita) de Plutão, formando filamentos que “descem” de Caronte até a superfície do planeta. Sabe-se que Plutão e Caronte, devido à proximidade, por vezes formam um filamento atmosférico em comum, vencendo uma distância de 19.000 quilômetros.

Gregory Benford escreve “The Sunborn” (2006) e nos conta quando a primeira expedição enviada a Plutão encontra vida inteligente pelas praias do oceano de nitrogênio líquido, vivendo muito bem em temperaturas como 185o. C negativos – seres que são o fruto de experiências conduzidas por formas de vida magnéticas que vivem na heliopausa do sistema solar.

A topografia plutoniana recebeu nomes em homenagem a escritores de literatura fantástica e suas criações: assim, temos crateras chamadas Nemo (em homenagem a Júlio Verne) e Dorothy (de “O Mágico de Oz”, por L. Frank Baum), áreas chamadas Cthulhu Regio, Balrog Macula, etc.


Topografia informal de Plutão, com referências pop.

O tema dos Nossos Astros na Ficção Científica ainda não se esgotou: mas semana que vem faremos outra pausa, com mais um colunista convidado – a caçada vai começar!

Luiz Felipe Vasques

03/06/2019

Links Externos (em inglês):

https://en.wikipedia.org/wiki/Uranus
https://en.wikipedia.org/wiki/Uranus_in_fiction
https://en.wikipedia.org/wiki/Neptune
https://en.wikipedia.org/wiki/Neptune_in_fiction
https://en.wikipedia.org/wiki/Pluto
https://en.wikipedia.org/wiki/Pluto_in_fiction
http://www.sf-encyclopedia.com/entry/outer_planets