Desviando um Asteroide. Finalmente!

 

Comentário do Astrônomo Leandro Guedes sobre “Cientistas planejam missão para alterar rota de asteroide”

O verdadeiro problema sobre asteroides que podem se chocar com a Terra está no fato de nunca termos testado as tecnologias disponíveis para nos defender. Finalmente, esse problema será resolvido em breve.

As chances de um asteroide ou cometa ser observado durante a iminência de um impacto, ou seja, quando não há muita coisa a se fazer, é desprezível na realidade. Podemos observar objetos e determinar suas trajetórias muito antes de um impacto. Uma possível colisão com a Terra pode ser prevista com décadas ou séculos de antecedência, tempo suficiente para fazermos algo.

Algumas ideias foram propostas para lidar com um asteroide em rota de colisão com nosso planeta. Uma delas era embrulhar o asteroide em uma espécie de papel laminado. A luz do sol seria refletida pela superfície do papel laminado, o que, ao longo de alguns anos, empurraria o objeto, alterando sua órbita. Em vez de a energia da luz solar ser absorvida e esquentar o objeto, ela o empurraria. É, eu também acho que seria difícil embrulhar um asteroide com papel laminado… divertido, mas difícil.

Uma outra ideia, muito boa, seria utilizar um reboque gravitacional. Se aproximarmos do asteroide ou cometa um veículo com bastante massa, teríamos uma atração gravitacional considerável entre eles. Controlando o veículo aqui da Terra, poderíamos utilizar essa atração gravitacional para, lenta e sutilmente, ao longo de vários anos, puxar o objeto perigoso e alterar sua órbita.

A ideia da missão Don Quijote é outra: provocar um impacto no asteroide para desviar seu curso com a força da colisão. Como uma jogada de sinuca espacial, mas sem caçapa para acertar a bola.

Dois asteroides estavam sendo cogitados como alvo da missão, o próprio 99942 Apophis e o 2003 SM84.  O Apophis ficou famoso em 2004, quando cálculos preliminares mostraram um alto grau de probabilidade de colisão para 2029. Essa possibilidade foi afastada, mas naquele ano, o asteroide passará próximo o suficiente para que sua órbita seja alterada ao ponto de termos um outro possível impacto  em 2036.

A missão Don Quijote terá um módulo de impacto chamado Hidalgo e um orbitador chamado Sancho. Os que sempre tiveram vontade de ler a obra Don Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, mas nunca tiveram coragem de começar, podem se sentir mais estimulados agora.

Esperamos que o teste de Don Quijote seja satisfatório. O espaço próximo é constantemente observado por cientistas que monitoram os NEOs, ou, objetos próximos à Terra (da sigla, em inglês de Near Earth Objects). Portanto, um impacto real poderá, sem dúvida, ser previsto com antecedência confortável para agirmos.

Podemos nos divertir com filmes de ação sobre impactos de asteroides, como os hollywoodianos Armageddon e Impacto Profundo. Ou podemos explorar a alma humana com o recente Melancolia, de Lars Von Trier. Mas a preocupação real deve ser pequena, mantida no limite da atenção. Vamos manter a atenção aos objetos que passam próximos da Terra, mas ficar em pânico pensando que o mesmo evento que eliminou os dinossauros pode se repetir agora que nós humanos dominamos a Terra, é como ter medo de um moinho de vento.

Published by Leandro L S Guedes

Astrônomo, Diretor de Astronomia da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro.

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