ASTRÔNOMOS COMO AUTORES DE FC: TRÊS PARADIGMAS


Filme Interestelar (2014): a concepção do Buraco Negro baseado em modernas previsões matemáticas.

Em fevereiro falamos da Astronomia em Júlio Verne, vamos falar de novo sobre esta Ciência na Ficção Científica através de seus pesquisadores: com a palavra, os astrônomos escritores.

Este é um levantamento feito sobre o assunto e que serviu de base para este artigo. Alguns dos autores são conhecidos do público brasileiro, especialmente Carl Sagan, que foi muito popular nos anos 1980 com a série (e livro) “Cosmos”, reeditada em tempos mais recentes por Neil deGrasse Tyson, outros mais conhecidos entre leitores de ficção científica.

Por isso temos, como convidado, o escritor de ficção científica E astrônomo (além de engenheiro) Gerson Lodi-Ribeiro para falar sobre o tema.

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Astrônomos como Autores de FC: Três Paradigmas Distintos

Astrônomos que se metem a escrever ficção científica não constituem exatamente uma novidade. A prática precede o próprio gênero. De fato, Johannes Kepler publicava seu “Somnium” em 1634, uma narrativa de protoficção científica em que um demônio conduz um ser humano à Lua durante um eclipse. Dois séculos mais tarde, o astrônomo francês Camille Flammarion (1842-1925) misturou divulgação científica com narrativas de FC mística com êxito comercial considerável. Ainda que, sob a óptica do público leitor e da crítica atuais, viagens oníricas e translações astrais para outros mundos possam não soar como ficção científica de boa cepa, as sementes estavam plantadas e germinariam.


Edições em português de A Nuvem Negra: pela brasileira GRD e a portuguesa Colecção Argonauta.

Já no século XX, o britânico Fred Hoyle (1915-2001), primeiro astrônomo a aplicar as equações da Relatividade à Cosmologia e a formular os princípios da nucleossíntese estelar (formação de elementos mais pesados do que o hidrogênio no interior das estrelas), escrevia FC hard instigante e original. Dentre suas obras se destaca o romance “A Nuvem Negra” (1957), em que o Sistema Solar é visitado por uma nuvem interestelar dotada de vida e inteligência.

No entanto, devido à limitação de espaço inerente ao artigo, hoje falaremos de três romances de ficção científica escritos por astrônomos nas últimas décadas do século passado. Os autores escolhidos são David Brin, Robert L. Forward e Carl Sagan. Essas três escolhas se devem não só ao fato de serem autores cujas obras admiramos, mas também pelo fato de suas carreiras científicas e literárias serem relativamente bem conhecidas.

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Via Livros de Bolso FC (Portugal), Maré Alta Estelar foi publicado em dois volumes.

Vamos abrir com o romance premiado Maré Alta Estelar (1983), de David Brin. O autor possui um doutorado em astrofísica, tendo se interessado também pela SETI (sigla em inglês para “Busca por Inteligência Extraterrestre”). Abriu mão da carreira científica para se tornar escritor em tempo integral.

Ciente das dificuldades gigantescas que as formas irracionais complexas enfrentam para alcançar a racionalidade, Brin concebeu um mecanismo ficcional engenhoso para justificar uma periferia galáctica densamente populada por formas inteligentes alienígenas: o patrocínio, sistema pelo qual uma civilização tecnológica eleva espécies animais à racionalidade, através de técnicas avançadas de manipulação genética. Em troca, as espécies clientes devem trabalhar servilmente durante milênios para os seus patrocinadores. Ao fim desse longo período, os tutelados são libertados e se habilitam, eles próprios, a patrocinar as formas irracionais que escolherem. Toda a estrutura hierárquica das civilizações técnicas da Via Láctea remonta, em suas origens, a uma cultura mítica, os Progenitores, a primeira espécie racional, que teria evoluído espontaneamente e elevado as primeiras espécies animais, todas já extintas.

Neste cenário galáctico complexo, surge a Humanidade. Somos literalmente os párias da periferia. Como os Progenitores, nós nos erguemos das brumas da irracionalidade até as estrelas sem o auxílio de patrocínio alienígena. Contudo, numa galáxia repleta de espécies patrocinadoras poderosas e hostis, nossa mera existência soa como heresia e está sempre por um fio. E, o pior, embora inteiramente órfãos, nós humanos nos atrevemos a patrocinar neofins (a partir dos golfinhos), neochimps (chimpanzés) e neocães. E, pior ainda, ousamos a lhes conceder autonomia tão logo eles atingiram a racionalidade, anarquizando inteiramente a hierarquia do patrocínio estabelecida há centenas de milhões de anos na periferia.

O mecanismo do patrocínio também serve para justificar o fato de espécies extremamente agressivas não se terem autoexterminado bem antes de serem capazes de dominar as técnicas de navegação interestelar. Com esse conceito, Brin solucionou de uma só vez dois dos problemas que inquietavam há décadas a parcela mais esclarecida do fandom: o paradoxo de Fermi em si e a presença de alienígenas a um só tempo avançados e agressivos. O enredo em si é fantástico. Não será comentado aqui por motivo de falta de espaço, embora nós o recomendemos com o máximo empenho.

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Romance e sequência da de Dragon’s Egg: sem versão em português, infelizmente.

O romance “Dragon’s Egg” (1980), de Robert L. Forward (1932-2002) é considerado um exemplo clássico de FC ultra-hard. O autor é um astrônomo com doutorado em fenômenos gravitacionais. Ao contrário de Brin, jamais abandonou sua carreira científica. Ao contrário, logrou conciliá-la com suas atividades literárias. Graças à sua formação, conseguiu descrever com verossimilhança notável a detecção de sua fictícia estrela-de-nêutrons a 0,13 anos-luz do Sol que, da perspectiva da Terra, estaria junto à “cauda” da constelação do Dragão (esta, visível somente no hemisfério norte).

A exploração desse astro se dá uma geração humana mais tarde. O mecanismo de compensação gravitacional engenhoso, imaginado pelo autor para possibilitar que uma nave auxiliar tripulada se aproxime do objeto colapsado sem que seja esmagada pela força da maré gravitacional, é descrito com um nível de detalhamento técnico sem precedente na FC recente.

Forward propõe em “Dragon’s Egg” a existência de uma biosfera onde, sob uma gravitação superficial de 67 bilhões de g, um campo magnético de um trilhão de gauss e a uma temperatura de 8.200 K, as reações presentes na bioquímica convencional cederam lugar às reações biotermonucleares. O papel das moléculas orgânicas carbonadas da nossa bioquímica é desempenhado por núcleos degenerados complexos. A existência de complexidade e de um nível mínimo de organização num dado ambiente implicaria, segundo Forward, no surgimento de vida.

E não paramos por aí. Representando o ápice da evolução biológica no Ovo, os cheela são auxiliados pelos humanos, durante um intervalo de tempo muito breve. Afinal, o ciclo de vida cheela é cerca de um milhão de vezes mais rápido que o humano. Partindo do equivalente à Idade do Bronze, em menos de vinte e quatro horas os cheela ultrapassam em muito o desenvolvimento tecnológico de seus antigos mestres.

Ao fim do romance, Forward brinda o leitor com um apêndice técnico detalhado, com dados físicos, astronômicos e biológicos do Ovo. Em termos estilísticos, percebe-se que ainda faltava ao autor um domínio mais pleno da arte, falha compreensível por se tratar de sua primeira experiência literária de vulto. Por outro lado, a ideia da existência de vida racional em escala quase microscópica sobre a superfície de uma estrela-de-nêutrons é sensacional e justifica per si a leitura do livro. O argumento é apresentado de modo cientificamente plausível e muito bem desenvolvido em todos os seus múltiplos detalhes. É ler para confirmar.

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Capas de Contato publicadas no Brasil.

Outro exemplo de FC hard é o romance “Contato” (1985), de Carl Sagan (1934-1996). A reputação do autor como astrônomo, exobiólogo e divulgador de renome mundial, dispensa maiores comentários. Nesse seu único incursão como autor de ficção científica, o grande advogado da SETI nos narra o primeiro contato entre a humanidade desses últimos anos do milênio e uma civilização alienígena infinitamente mais avançada.

Esse contato se dá exatamente da forma que a maioria da comunidade científica atual acredita que ocorra algum dia: através de comunicações radiofônicas interestelares. A recepção da mensagem, sua decifração e a construção de uma máquina cujas instruções se encontram embutidas na mesma são descritas de forma detalhada o bastante para fazer com que um leitor menos atento se indague algumas vezes se não estaria simplesmente lendo um texto contendo a romantização de uma descoberta científica real.

Vários pormenores e idiossincrasias da SETI são esmiuçados de uma maneira que só um pesquisador da área se atreveria. Qualquer leitor que simpatize com o assunto dificilmente deixará de apreciar o romance. A protagonista, Eleanor Arroway, parece ter sido livremente inspirada em Jill Tarter, uma astrônoma norte-americana ligada à SETI na vida real. O romance inspirou o filme homônimo, lançado em 1997, protagonizado por Jodie Foster.

A história culmina com a descrição mais verossímil de uma viagem hiperespacial que já lemos, com o deslocamento se dando através de algo parecido graças a um wormhole artificial, envolvendo ainda no processo uma distorção espaço-temporal que faz com que o viajante passe o Tempo mais devagar do que do lado de fora da viagem. E o contato físico propriamente dito com um alienígena também é enxuto e isento das pieguices e clichês tão habituais a esses tipos de cena. Depois disso tudo, a revelação que deveria ser a mais fantástica de todos os tempos, a prova absoluta da existência de um propósito na Criação, pelo menos para nós pareceu um tanto ou quanto anticlimática.

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Enfim, esses foram apenas três dentre os muitos exemplos possíveis do que os astrônomos e astrofísicos podem fazer quando resolvem escrever ficção científica.

Forward, Brin e Sagan não foram e são os únicos. Longe disso. Há Charles Sheffield, Gregory Benford, Geoffrey Landis, Alastair Reynolds, Alan Smale e muitos outros. Quem sabe não falaremos deles em outra ocasião?

Luiz Felipe Vasques e Gerson Lodi-Ribeiro,

6 de Agosto de 2019

Gerson Lodi-Ribeiro é carioca, engenheiro eletrônico e astrônomo UFRJ, havendo publicado ficção científica desde os anos 1990, sendo pioneiro da História Alternativa em português. Além de contos, coletâneas e romances de literatura fantástica publicados, também já organizou antologias, havendo ganhado prêmios literários no campo. Fora da literatura fantástica, publicou Vita Vinum Est!: História do Vinho no Mundo Romano. Seu site é o das Crônicas da FC Brasileira .