Tem Astronomia em Star Wars?

Quando falamos de Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977) temos que ter em mente que não é ficção científica, pelo menos não no sentido estrito do termo. Esta luta entre Jedis e Siths está mais para fantasia: uma espécie de capa e espada ambientadas no espaço. O próprio criador, George Lucas, afirma isso.

Uma história só é puramente ficção cientifica se, e somente se, o enredo dependesse de um fato ou hipótese científica para acontecer. A saga da família Skywalker poderia acontecer em qualquer época e qualquer lugar, substituindo naves espaciais por navios e armas de raios por pistolas. Somado a isso, a ênfase no poder quase mágico da Força é o centro da história, apesar de toda trama política e militar. Por tudo isso, Star Wars não precisa se prender a conceitos científicos para ser uma boa história.

Por outro lado, podemos classificar Star Wars no gênero quase inseparável da ficção científica: a Space Opera. Este gênero é uma interseção entre fantasia, ficção científica e as histórias de heróis de quadrinhos. Sob este aspecto, a saga tem como companheiros Flash Gordon, Buck Roger, Star Trek, Battlestar Galactica, e outros grandes nomes das aventuras espaciais. Para compor este cenário há várias citações astronômicas naquela “galáxia tão tão distante”. É uma pena que aquelas explosões barulhentas resultantes dos maravilhosos embates estelares é algo impossível no espaço de verdade. Se você ainda não viu a série (os seis filmes), eu pergunto: POR QUÊ?

Só prometo não dar spoiler do último episódio que eu ainda não assisti (até o momento em que escrevo este artigo).

Em dois filmes há combates entre rochedos espaciais: “O Império Contra Ataca” (1980) e “O Ataque dos Clones” (2002).

No primeiro filme, a Millennium Falcon se esconde dos destroyers imperiais no interior de um asteroide ainda por cima habitado por um monstro. As naves imperiais perdem a nave de Han Solo numa verdadeira confusão de rochedos celestes.

 https://www.youtube.com/watch?v=MLtlcSR9A6M

 No segundo filme há uma perseguição: o Jedi Obi-Wan Kenobi, em uma nave que lembra uma gaivota de papel, e o caçador de recompensas Jango Fett, numa nave que lembra um ferro de passar roupas, a Slave I. Eles vão manobrando perigosamente entre os “cascalhos espaciais” e, por pouco, não colidem.

https://www.youtube.com/watch?v=3ME5jhsgmB4

Se tomarmos como referência nosso cinturão de asteroides (que fica entre Marte e Júpiter), apesar de ter mais de 6.000 componentes, as distâncias entre eles é gigantesca. Os tais asteroides não seriam tão próximos a ponto de esconder uma nave tão grande como a Millennium Falcon. Só teríamos aquele amontoado de pedras dentro de um anel planetário, que é o que acontece no segundo filme ao redor do hipotético planeta Geonosis. Parece que rolou uma consultoria entre um filme e outro.

Os planetas que servem de ambiente para as histórias seguem o padrão usado por muitos outros space operas: planetas dominados por um tipo único de cenário. Assim temos Kamino ‒ o planeta oceano, a Lua florestal de Endor, o planeta pântano de Dagobah, Hoth ‒ o planeta gelado, Mustafar ‒ o planeta vulcânico, e vai por aí a fora. Não vejo porque planetas com atmosferas respiráveis terem somente um cenário. Planetas como a Terra com diversos tipos de paisagens naturais não devem ser tão interessantes do ponto de vista aventuresco. É como se estivéssemos vendo uma história de navegantes tipo Ilíada de Homero ou Viagens de Guliver.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_planetas_de_Star_Wars

O planeta mais visitado do universo de Star Wars é, sem dúvida, Tatooine: cinco dos seis filmes tem passagens por ele. Imagine um planeta deserto onde vivem vermes gigantescos: qualquer semelhança com o romance Duna (1965), de Frank Herbert, talvez não seja mera coincidência. Mas o que me chama mais atenção do ponto de vista astronômico são os dois sóis que aparecem em várias cenas próximos ao horizonte. A maior parte das estrelas que vemos no céu são, na verdade, formados por sistemas de dois, três ou mais sóis. Seria algo bem comum um sistema solar assim, mas é difícil saber se abrigariam mundos habitáveis.

Para finalizar, não podemos deixar de citar aquele erro clássico do primeiro filme Uma Nova Esperança (1977). Logo no início do filme Han Solo enche a bola da sua nave Millennium Falcon dizendo que completou uma corrida em menos de 12 parsecs. O problema é que parsec não é uma medida de tempo mas de distância.