A Descoberta de Urano e Porque Você Deve Arrumar Sua Mesa.


Urano, o primeiro planeta do Sistema Solar identificado após a invenção do Telescópio.

Eu vou te contar porque não disse que Urano foi descoberto depois da invenção do telescópio, mas identificado…

O crédito da descoberta do planeta Urano é dado a William Herschel, um astrônomo nascido na Alemanha e naturalizado britânico, que viveu entre os séculos XVIII e XIX, mas existem ao menos três fortes indícios de observações de Urano feitas bem antes de Herschel.

A primeira observação de Urano parece ter sido feita na Grécia antiga, pelo astrônomo Hipparcus, que pode ter observado o planeta no ano 128 a.C. e o registrou como uma estrela em seu catálogo. O catálogo de estrelas de Hipparcus foi utilizado por Ptolomeu no livro Almagesto, onde ele explica seu modelo geocêntrico de Universo, no qual a Terra está numa posição central e os planetas giram ao redor dela. Note que Hipparcus não tinha telescópio, que só aparece no século XVII. Urano tem um brilho que está no limite do alcance do olho humano, então, um bom olho, num excelente céu pode identificá-lo sem nenhum equipamento

Após Hipparcus, o planeta foi observado em 1690 por outro Astrônomo, cerca de 80 anos depois da invenção do telescópio. Esse astrônomo foi  John Flamsteed, que o identificou como uma estrela na constelação do Touro.

E mais tarde, a partir de 1750, o astrônomo Pierre Charles Le Monnier, também observou Urano e o identificou como estrela. O caso de Le Monnier é interessante porque ele foi um astrônomo bastante produtivo, e foi muito importante em defender na França o método inglês, de John Flamsteed (aquele que também observou Urano e pensou que era estrela), de determinar a ascensão reta de um astro. Mas há relatos sobre um modus operandi de Le Monnier que pode tê-lo atrapalhado de ter, de fato, descoberto um novo planeta e daqui a pouco falamos sobre isso. Sabemos que Le Monnier observou Urano em um dos pontos estacionários da órbita, o que certamente também o atrapalhou de observar um movimento do Planeta

Chegamos finalmente a William Herschel. Na noite de 13 de março de 1781, Herschel observou Urano usando um de seus telescópio no jardim de sua casa na cidade de Bath, Inglaterra. A casa de Herschell hoje é o Herschel Museum of Astronomy, ou Museu Herschel de Astronomia. Mas, assim como seus antecessores, Herschel também não o identificou como planeta e, inicialmente, achou que se tratasse de um cometa ou um objeto nebuloso

Objeto nebuloso era como os astrônomos chamavam nebulosas, galáxias e aglomerados estelares antes de nós sabermos o que são nebulosas, galáxias e aglomerados estelares, porque esses objetos aparecem como manchinhas no céu, ou, literalmente, como objetos nebulosos

Quatro dias depois, em 17 de Março daquele ano, Herschel notou um deslocamento no objeto e concluiu que se tratava de um cometa, porque cometas, assim como os planetas, se deslocam de forma perceptível no céu, enquanto os objetos nebulosos são considerados fixos, assim como as estrelas.

Quando Herschel anunciou sua descoberta à Royal Society, uma das maiores sociedades científicas da História, ele explicou ainda mais porque se tratava de um cometa e curiosamente ele utilizou a observação de planetas como exemplo. Ele disse que quando aumentava o aumento de seu telescópio, o tamanho do objeto também aumentava, assim como acontece com os planetas, e não acontece com as estrelas que sempre aparecem como pontos, não importa o aumento que você use no seu telescópio. Isso acontece porque as estrelas estão numa escala de distância muito maior que a dos objetos do Sistema Solar

Então, o novo “cometa” descoberto passou a ser observado por outros astrônomos e aí coisas estranhas começaram a aparecer. O astrônomo real  Nevil Maskelyne, que alguns anos antes esteve envolvido com uma experiência para medir a massa da Terra, disse num comunicado:

“Não sei como chamá-lo. É tão provável que seja um planeta normal se movendo numa órbita quase circular ao redor do Sol como um cometa se movendo numa elipse extremamente excêntrica. Ainda não vi nenhuma coma ou cauda nele.

Cauda e coma são estruturas que os cometas exibem quando se aproximam do Sol. Ainda assim, Herschel continuava convencido de que seu objeto se tratava de um cometa.

O astrônomo Filandês Anders Johan Lexell, trabalhando na Rússia, foi o primeiro a descrever a órbita do novo objeto, que era mesmo quase circular, o que é característica de planetas e não de cometas, que possuem órbitas mais excêntricas, ou mais alongadas, como Maskelyne tinha dito.

O astrônomo alemão Johann Elert Bode, que é muito conhecido pela lei de Titius-Bode, uma lei empírica que determina o raio médio das órbitas planetárias do Sistema Solar, disse que a descoberta de Herschel se trata de “um objeto semelhante a um planeta circulando além da órbita de Saturno”, surgindo aí a primeira referência à posição correta da órbita do astro.

Após essas observações, e certamente muitas outras que não foram registradas, o objeto foi reconhecido como planeta, e cada vez mais deixava de ser uma exclusividade de Herschel. Em 1783, dois anos depois de ter apontado seu telescópio para esse novo objeto no jardim de sua casa, Herschel disse à Royal Society:

“Pela observação dos mais proeminentes astrônomos na Europa parece que o novo objeto, o qual tive a honra de mostrar para eles em 1781, é um planeta do nosso Sistema Solar”.

Outro momento interessante com relação à descoberta de Urano foi seu nome, que só passou a ser aceito como conhecemos hoje quase 70 anos após as observações de Herschel. Maskelyne era um grande nacionalista, gostava de valorizar as coisas inglesas, algo que se vê com muita ênfase em seu envolvimento com o experimento para medir a massa da Terra, disse à Herschel:

“Faça ao mundo astronômico o favor de dar um nome ao seu planeta, que é totalmente seu, e do qual somos muito gratos à você pela descoberta.”

Em resposta à Mskelyne, Herschel nomeou “seu” planeta de Georgium Sidus, Latim para ‘estrela de George’ ou ‘planeta de George’, homenageando o rei George III. Ele explicou a escolha do nome da seguinte maneira:

“Nas fabulosas eras dos tempos antigos, os nomes de Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno foram dadas aos planetas, por serem os nomes de seus principais heróis e divindades. Na mais filosófica era atual, dificilmente seria permitido recorrer ao mesmo método e usar Juno, Pallas, Apollo ou Minerva, como um nome para o nosso novo corpo celeste. A primeira consideração de qualquer evento em particular, ou incidente notável, parece ser sua cronologia: se em alguma época futura for perguntado, quando este último planeta encontrado foi descoberto? Seria uma resposta muito satisfatória dizer: ‘No reinado do rei George, o terceiro’.

Evidentemente esse nome não fez o menor sucesso fora da Grã-Bretanha e houve outras propostas. Até chamar o planeta de Herschel foi proposto, por um astrônomo Francês, mas o nome que se estabeleceu na História foi proposto por Johann Elert Bode, aquele mesmo que também estudou a órbita do planeta e conhecido pela lei de Titius-Bode.

Bode (se pronuncia “bôda”) propôs em 1782 Uranus, do Latim, o que traduzimos em português como Urano, deus grego que personifica o céu. Justificou sua sugestão dizendo que Urano era pai de Saturno, que por sua vez era pai de Júpiter. Então teríamos na sequência Júpiter, Saturno e Urano, uma sequência de pais e filhos.

Em 1789, o químico alemão Martin Heinrich Klaproth, colega de Bode na Academia Real de Ciência da Suécia, descobriu um novo elemento químico e o batizou de Urânio (92U), para dar suporte ao nome do novo planeta proposto por Bode

Urano passou a ser cada vez mais utilizado ao redor do mundo até que se tornou de fato oficial em 1850 quando a publicação inglesa Almanaque Náutico de sua Majestade ou Her Majesty’s Nautical Almanac Office (HMNAO) parou de usar Georgium Sidus e passou a usar Urano como nome do novo planeta.

Então, deixo aqui algumas reflexões filosóficas e históricas para você.

Em primeiro lugar note que, mesmo sendo visível sem telescópio e observado desde antes de Cristo, Urano passou despercebido como planeta por séculos de astronomia. Os astrônomos, antes do telescópio, só diferenciavam planeta de estrela por seu movimento, e aparentemente, ninguém percebeu o movimento de Urano. Algo que estava tão ao alcance de vários astrônomos por séculos, acabou escapando.

Outra questão é sobre Pierre Charles Le Monnier que, em meados do século XVIII, já tinha bons telescópios, era um astrônomo talentoso, observou Urano, e apesar de ter observado num momento em que o planeta estava com pouco deslocamento, provavelmente, ele deixou de entrar para a história como o descobridor por causa de um modus operandi em sua forma de trabalhar. Há relatos de que Le Monnier era um cara fácil de se irritar e meio bagunçado com suas anotações. A condição observacional de Urano e a bagunça de suas anotações podem tê-lo impedido de descobrir um planeta. Isso pode servir de estímulo para você arrumar a sua mesa!

E para terminarmos, note que a descoberta de Urano foi um processo que começou com a observação de William Herschel, levando em conta que as observações anteriores não tiveram desdobramentos que aproximassem o objeto de ser reconhecido como planeta. Não foi o trabalho de uma única pessoa, houve trabalho de muita gente, até que tivéssemos finalmente a descoberta de que havia mais um planeta no Sistema Solar. E esse processo envolveu não só questões científicas, como a determinação da órbita do objeto, como também muita questão política que fez com que demorasse 70 anos para que um nome fosse finalmente estabelecido

Isso é muito característico da ciência moderna, e quando eu falo ciência moderna me refiro do século XVIII para cá, pelo menos. Para fazermos real justiça histórica, e entendermos o que de fato aconteceu, é preciso compreender que modernamente, normalmente, não há heróis solitários mas trabalho em grupo.

Bons céus e até a próxima!

Leia Mais:

Royal Society
https://royalsociety.org/
Herschel Museum of Astronomy
https://herschelmuseum.org.uk/

Sobre Le Monnier

https://books.google.com.br/books?id=wXRKAAAAYAAJ&pg=PA182&dq=le+monnier+IRRITABLE&hl=en&sa=X&redir_esc=y#v=onepage&q=le%20monnier%20IRRITABLE&f=false

https://www.theodora.com/encyclopedia/l/pierre_charles_lemonnier.html

https://books.google.com.br/books?redir_esc=y&id=lAQ5AAAAMAAJ&dq=ADVANCED+PHYSIOGRAPHY&focus=searchwithinvolume&q=By+not+arranging+them+decently+and+in+order+Le+Monnier+lost+out+on+immortality

Her Majesty’s Nautical Almanac Office:

http://astro.ukho.gov.uk/

Published by Leandro L S Guedes

Astrônomo, Diretor de Astronomia da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro.