A Astronomia Cultural e os Sistemas de Conhecimento Indígenas

O crescente interesse internacional pela importância da contribuição do conhecimento tradicional indígena levou a United Nations Education, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) a proclamar uma linha de ação na “Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural” de 2001:

 

Respeitar e proteger os sistemas de conhecimento tradicionais, especialmente os das populações indígenas; reconhecer a contribuição dos conhecimentos tradicionais para a proteção ambiental e a gestão dos recursos naturais e favorecer as sinergias entre a ciência moderna e os conhecimentos locais (UNESCO, 2001).

 

A partir desta declaração, muitas iniciativas tiveram início no sentido de proteger e resgatar os Sistemas de Conhecimento Indígenas, especialmente no que se refere à diversidade de maneiras como as etnias indígenas percebem os objetos celestes e os integram com sua visão de mundo.

Em 2002, a UNESCO deu início ao projeto Local and Indigenous Knowledge Systems (LINKS), que vem lançando uma série de publicações sobre o tema. Em 2005, o World Heritage Committee da UNESCO aprovou uma iniciativa temática para “identificar, salvaguardar e promover propriedades culturais conectadas com a Astronomia”, chamada Astronomy and World Heritage Iniciative. Em outubro de 2008, a União Astronômica Internacional, em cooperação com a UNESCO, criou o grupo de trabalho Astronomy and World Heritage, que publicou um importante livro temático (o sumário está disponível online aqui), descrevendo sítios arqueológicos de importância astronômica no mundo todo.

O patrimônio astronômico é definido como a evidência relacionada à prática e aos usos sociais e representações da Astronomia. Ela existe sob a forma de monumentos e sítios tangíveis, com uma relação com o céu, mas também pode envolver objetos móveis como instrumentos e arquivos. Há também o patrimônio intangível, que inclui o conhecimento indígena sobre o céu, o que interessa particularmente no caso das etnias indígenas do Brasil.

A enorme importância da observação do céu para os grupos indígenas brasileiros é uma característica que foi percebida por muitos missionários, naturalistas e etnólogos que aqui circularam, e o registro destas informações tem sido importante para uma melhor compreensão dos saberes sobre a natureza desses povos. Estas crônicas – as mais antigas remontam ao século XVI – têm se revelado fonte de valor inestimável para conhecermos um pouco melhor a Astronomia em culturas que, por vezes, nem existem mais.

De acordo com a página do Instituto Sócio Ambiental, estima-se que, na época da chegada dos europeus, houvesse mais de mil povos indígenas no território que compreende hoje o Brasil, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente, encontramos no território brasileiro 238 povos, que falam mais de 180 línguas diferentes. Infelizmente, contamos hoje nos dedos da mãos as etnias cujo patrimônio cultural astronômico tem sido reconhecido, documentado e divulgado, embora cada uma das mais de duzentas etnias tenha um rico conhecimento sobre o céu.

No dia de hoje, registramos a nossa homenagem a todas os povos indígenas brasileiros que, apesar de viverem sob uma opressão de mais de cinco séculos, lutam pela preservação de seu belo patrimônio cultural.

Para saber mais:

Heritage Sites of Astronomy and Archaeoastronomy in the context of UNESCO World Heritage Convention – A Thematic Study. Ruggles, Clive and Cotte, Michel (eds.). Paris: ICOMOS and IAU. June, 2010.

UNESCO. Astronomy and World Heritage. World Heritage Review n° 54. Paris: UNESCO, October 1, 2009.

UNESCO Universal Declaration on Cultural Diversity. Adopted by the 31st Session of the General Conference of UNESCO. Paris, 2 november 2001.